Cafeteira: partiu, quase centenário, o político que nasceu da coragem, da ousadia, do populismo e que se transformou num mito do Maranhão

 

Cafeteira no senado: o fechamento de uma trajetória rica do mais bem sucdidos e intrigantes políticos do último século no Maranhão
Cafeteira no Senado: registros do fechamento da trajetória rica de uma das  mais bem sucedidas e intrigantes personalidades políticos do último século no Maranhão

Partiu, na tarde de Domingo, em Brasília, aos 93 anos, Epitácio Cafeteira, uma das mais destacadas, bem sucedidas e intrigantes personalidades de proa da política do Maranhão no último século. Na sua movimentação política era fácil ver o militante solitário que apostava na sua própria ação, o populista no melhor estilo dos sedutores de massa, e uma esfinge ideológica, que reunia traços da direita civilizada, do centro e da esquerda moderada. Epitácio Cafeteira foi temido pelos adversários, sempre visto com reservas pelos seus aliados eventuais e adorado pelos correligionários, que o viam com as cores do messianismo. Epitácio Cafeteira viveu uma carreira política programada, que ele traçou sozinho, sem o debate em grupo, tendo alcançado, pelos próprios méritos – um deles o de usar com perfeição sua argúcia apurada -, todos os objetivos que elencou na sua trajetória. Foi deputado federal quatro vezes, prefeito de São Luís, Governador do Maranhão e senador da República por dois mandatos. Nessa trajetória surpreendente e vitoriosa para um político com a sua personalidade, Cafeteira sofreu também derrotas amargas, sem, no entanto, ter deixado de alcançar o que programara ainda nos anos 50 do século passado.

Quando concorreu a deputado federal, tinha um objetivo muito claro: chegar à Prefeitura de São Luís. Naquele tempo, prefeito de Capital era nomeado pelo Governador do Estado e atuava como um secretário. Ao chegar à Câmara Federal, cuidou de apresentar um projeto de emenda à Constituição instituindo a escolha do prefeito de Capital pelo voto direto. Conseguiu a aprovação da Emenda, candidatou-se a prefeito de São Luís em 1965 e elegeu-se com a maior votação registrada até então. Fez uma gestão histórica, enfrentando o contrapeso de ninguém menos que o então governador José Sarney. Os dois iniciaram uma guerra que seria interrompida em 1986, quando disputou o Governo do Estado com o apoio do então presidente José Sarney, mas que foi retomada em 1990, quando rompeu com Sarney e se elegeu senador, perdeu em seguida duas eleições para o Governo do Estado. O armistício definitivo aconteceu em 2006, quando Cafeteira foi eleito senador pela última vez e com o apoio do ex-presidente e seu grupo. Exerceu o último mandato enfrentando o agravamento da sua saúde, exibindo uma surpreendente resistência ao  alcançar 93 anos.

Cafeteira foi um político autossuficiente: não acreditava na atuação de grupos, não tinha qualquer afeição por alianças e nunca demonstrou a mínima simpatia por partidos políticos. Começou sua carreira no PTB fundado por Getúlio Vargas, e se filiou ao MDB no bipartidarismo imposto pela ditatura militar. Nesse partido, que abrigou todas as tendências do centro à esquerda e se situou na Oposição ao regime de força, foi cuidadoso, mas firme, em relação à ditadura, mantendo também sua guerra contra o sarneysismo, travando ainda inúmeras batalhas internas contra Renato Archer e Cid Carvalho – ele não gostava dos dois e eles não o suportavam -, alimentando uma relação de altos e baixos também com Jackson Lago, de quem gostava pessoalmente, mas divergia no campo político. Em 1984, quando José Sarney precisou do aval do MDB maranhense para entrar no partido e disputar a eleição presidencial como vice de Tancredo Neves (MDB), Cafeteira “atropelou” Renato Archer e Cid Carvalho e fez uma negociação direta com Sarney, depois avalizada pelos dois: daria seu apoio, desde que fosse o candidato a governador em 1986. Acertou em cheio, principalmente por conta da morte de Tancredo, que fez Sarney presidente da República cumprir, como cumpriu, o acordo com Cafeteira. Da mesma maneira, planejou ser candidato a senador em 1990, tirando Sarney, agora como ex-presidente da República, da frente. O plano funcionou com perfeição, e com o apoio de Renato Archer e Cid Carvalho.

Epitácio Cafeteira foi um encantador de massas. Bastavam-lhe um palanque e um microfone. Destemido e ousado, irônico e agressivo, dizia para as camadas populares o que elas queriam ouvir, denunciava os poderosos e prometia que os pobres, “mesmo descalços, entrarão no Palácio dos Leões quando eu for governador”. Tinha forte inclinação pelo social, preferindo realizar obras e programas populares de assistência aos mais carentes a realizar ações que beneficiassem as classes mais abastadas. Suas ações como deputado federal, prefeito e governador refletiram claramente sua vocação de político voltado para as massas. Tanto que foi o primeiro candidato a governador a alcançar e ultrapassar a histórica barreira de 1 milhão de votos no Maranhão.  Ao longo da sua trajetória, conquistou simpatizantes e eleitores fiéis em todas as regiões do estado e em todas as camadas, a começar por São Luís, de longe sua maior e mais importante base política e eleitoral. Tal imagem foi esculpida lenta e cuidadosamente e se consolidou definitivamente com o envolvente jingle que usou na memorável campanha de 1986, que no refrão diz: “Cafeteira, tem a fibra de um lutador, Cafeteira é povo humilde, meu governador”.

Chama a atenção de que o estilo e o político que ele próprio criou e alimentou partiram com ele. Foram características tão fortes e tão próprias que não encontraram herdeiro nem sucessor. A visível e curiosa contradição do líder populista, adorado pela massa, mas que se mantinha distante do convívio social, preferindo o recolhimento familiar, fez dele um mito, ao mesmo tempo forte e intrigante.

PONTO & CONTRAPONTO

 

Cafeteira viveu momentos de atos e baixos que foram reveladores da sua personalidade forte e incomum

Epitácio Cafeteira foi um político fortemente personalista, que dificilmente se guiava por conselho ou sugestão de terceiros, mesmo os mais próprios. Ao mesmo tempo, se deixava dominar por prazeres que o distanciavam muito da imagem populista que cultivou intensamente durante a sua trajetória. No seu Governo, realizou obras que serão eternizadas, mas também deixou marcas da sua personalidade. Alguns registros reveladores de sua personalidade:

Solitário – Na campanha eleitoral de 1986, Epitácio Cafeteira montou dois escritórios. Um deles na sua ampla e confortável residência no Sítio Leal – a lado do Filipinho -, onde recebia políticos e assessores, sempre ouvindo calado, usando sempre uma piada para encerrar a conversa. O outro escritório ele montou numa casa situada no final da rua principal do Renascença, em cujo escritório montou na parede um grande mapa do Maranhão. Ali se isolava de vez em quando, permanecendo longo tempo examinando silenciosamente o mapa, usando alfinetes coloridos para marcar pontos. Assim definiu seu roteiro de campanha e regiões onde seu Governo atuaria tão logo fosse instalado.

Promoção – Em meio à guerra que mantinha com a Oposição na Assembleia Legislativa, o governador Epitácio Cafeteira desarmou um dos principais adversários. Naquele tempo, o trânsito na Rua do Egito era de mão única na direção Centro-Ponte José Sarney, e o movimento em frente à Assembleia Legislativa era controlado por um jovem soldado PM. Certo dia, um motoqueiro resolveu subir a rua na contramão, correndo o risco de causar um acidente. Quando chegou em frente ao Palácio Manoel Beckman, foi interceptado pelo militar, que num rasgo de coragem e destreza, conseguiu atirá-lo ao chão. Muito comentado na época, o fato chegou aos ouvidos do governador, que ao saber que o motoqueiro fora da lei era parente e assessor de um deputado oposicionista, decidiu promover o PM a cabo e distingui-lo com uma medalha por bravura.

Limusine – Epitácio Cafeteira era conhecido pela sua vaidade, que, sem exageros, externava nos ternos bem talhados, nos sapatos confortáveis, pelo uso de jóias como cordões de ouro e relógios e ainda por sua paixão por automóveis. Esse último item foi a causa de uma das poucas rusgas entre o governador e o então presidente José Sarney. Moda da época, Cafeteira comprou um automóvel Opala, da GM, e mantou transformá-lo numa limusine. Decidiu extrear o mimo no dia em que o presidente Sarney chegaria a São Luís de trem, inaugurando a Ferrovia de Carajás. Sarney, que então começava a se preocupar com a sua imagem, não gostou do carrão, avaliando-o como um exagero. Cafeteira mergulhou na decepção, recolheu o veículo, que acabou vendido no Governo de Edison Lobão.

Coração duro – Decidido a marcar para sempre algumas obras importantes do seu Governo, Epitácio Cafeteira mandou desenhar a escultura de um coração, que foi uma das suas marcas de campanha. Sabia, no entanto, que cedo ou tarde um governador adversário mandaria demolir a marca. E para, pelo menos, dificultar a demolição, já que seria impossível evitá-la, determinou que essas esculturas fossem assentadas sobre uma base de concreto de pelo menos dois metros de profundidade. Quando decidiu substituir a rotatória que cruzava as avenidas Collares Moreira e Carlos Cunha, que tinha um coração no centro, pelo Viaduto do Trabalhador, a então governadora Roseana Sarney mandou demolir o coração de concreto.  Para a surpresa dos demolidores, o coração estava assentado numa base de concreto cuja demolição exigiu mais de uma semana de trabalho duro, o que chegou a causar discussões apaixonadas em mesas de bar do Projeto Reviver, a grandiosa restauração da Praia Grande, obra que consagrou definitivamente o governador Epitácio Cafeteira em São Luís.

Grandeza – As relações de Epitácio Cafeteira com José Sarney já não eram as mesmas quando o Governo da Nova República chegou ao fim. Mas Cafeteira que, para desgosto de Sarney,  enxergando problemas que logo lavariam ao rompimento da aliança no Maranhão, havia apoiado a candidatura de Fernando Collor de Mello, protagonizou um gesto de grandeza sem paralelo. Ao invés de permanecer no Palácio do Planalto ao lado do novo presidente e mostrar a todos que seria também forte no novo Governo, acompanhou o agora ex-presidente José Sarney na descida da rampa do Palácio do Planalto. Na descida até o ônibus que os aguardava, recebeu as vaias e os aplausos que supreendentemente marcaram a despedida do ex-presidente e ganharam intensidade quando José Sarney, tendo Epitácio Cafeteira ao lado, tirou do bolso um lenço branco e acenou para a multidão.

Cafeteira é reconhecido como referência por políticos de diferentes gerações

Líderes de diferentes gerações e posições reconheceram em Epitácio Cafeteira uma das maiores referências políticas do Maranhão no último século:

José Sarney (maior adversários e aliado): “Recebi comovido, aqui em Nova York, onde me encontro, a notícia da sua morte. E o meu pensamento logo elevou-se a Deus, rogando para que o acolha em sua companhia, e pedindo que console sua dedicada esposa Dona Isabel, que lhe ofereceu tanto amor, apoio e carinho nos seus momentos de sofrimento, assim como a filha Janaína e todos os seus familiares, aos quais envio o meu abraço pesaroso. O Maranhão está de luto com a morte de Cafeteira”. 

Flávio Dino (governador, que não militou com Cafeteira): “Minha homenagem ao ex-governador do Maranhão, Epitácio Cafeteira. Foi também deputado federal e prefeito de São Luís. Que deus o acolha. Meu abraço solidário para toda a família. Especialmente ao líder do nosso Governo na Assembleia Legislativa, Rogério Cafeteira. Decretei luto oficial por três dias no Estado e as devidas honras ao ex-governador”.

Othelino Neto (um dos líderes da nova geração): “Neste momento de dor, a Assembleia Legislativa do Estado do Maranhão se solidariza com o deputado Rogério Cafeteira, com toda a família, amigos e admiradores do ex-senador Epitácio Cafeteira, rogando a Deus que conforte a todos. Pela inestimável perda e toda a trajetória do ex-senador Epitácio Cafeteira, decreto luto oficial de três dias, a contar de hoje”.

Edivaldo Holanda Jr. (prefeito de São Luís e um dos líderes da nova geração): “Manifesto meu mais profundo sentimento de pesar pelo falecimento, neste domingo (13), do ex-governador do Maranhão, Epitácio Cafeteira. Cafeteira, em sua longa trajetória pública, também exerceu os cargos de prefeito de São Luís, deputado federal e senador da República, e deixa um grande legado. Neste momento de dor, solidarizo-me com familiares e amigos, em especial com o deputado estadual Rogério Cafeteira, sobrinho do ex-governador. Por sua partida, decreto luto oficial de sete dias em São Luís”. 

São Luís, 14 de Maio de 2018.

Um comentário sobre “Cafeteira: partiu, quase centenário, o político que nasceu da coragem, da ousadia, do populismo e que se transformou num mito do Maranhão

  1. Ribamar,
    O texto retrata a trajetória e a personalidade do político que marcou uma época e deixou uma marca indelével a todos que desejam compreender o cenário e as características políticas do nosso Estado.
    Mais uma vez, parabéns ao titular do blog. Um texto que certamente ser revisitado de vem em quando…

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *