ESPECIAL Barrica: de boizinho apaixonado por uma estrela a símbolo contagiante da cultura popular do Maranhão

 

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O boizinho Barrica e seus momentos de alegria pelos arraiais

A ideia inicial tinha tudo para não dar certo: um boizinho com corpo de barrica apaixonou-se pela Estrela Dalva, e encantado pelo seu brilho nas claras noites juninas, resolveu percorrer os arraiais de São Luís em busca da sua amada. Mesmo imaginado pelo viés poético, o Boizinho Barrica, como seria batizado, em princípio não teria a menor chance de brilhar nos arraiais e terreiros da Ilha de Upaon Açu, terrenos dominados por bois imensos, ricamente adornados e embalados por “batalhões” arrasadores, como o Boi da Maioba, por exemplo, que aonde chega faz “a terra tremer e a poeira levantar”. Mas, o que nasceu como uma criação atípica e rompendo padrões, espantou puristas e sofreu restrições por cometer a audácia de bailar nos quatro sotaques, ganhou vida no universo junino de São Luís e chegou aos 31 anos encantando multidões na Ilha e no resto do mundo nos cinco continentes.

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Barrica no palco e seus dois poetas maiores: Godão e Bulcão

A beleza das formas, os movimentos do bailado e a força da poesia e da música que o animam transformaram o Boizinho Barrica no que ele de fato é: um grupo de teatro de rua, que reúne todos os elementos da quadra junina: bumba-meu-boi, cacuriá, dança do coco e ladainha. Tudo isso embala o Boizinho na sua busca acompanhado pelo seu corpo de baile cujos integrantes se revezam nos papéis de vaqueiros, índios, coreiras e majestades do Divino. São casais de dançarinos que expressam também a sensualidade dos outros bailados. Anima o Boizinho uma música contagiante, registrada em mais de uma dezenas de discos. Entre as canções, muitas inesquecíveis, como Caixinha de segredos, com sotaque de zabumba, que quando cantada costuma colocar multidões para bailar.

Mas, afinal, de onde surgiu e o que é mesmo o Boizinho Barrica, essa brincadeira de rua que há mais de três décadas vem encantando arraiais, palcos, praças e ruas no Maranhão e do resto do mundo? É cria da imaginação do poeta e compositor José Pereira Godão, um apaixonado por tudo o que viu e ouviu desde que começou a compreender o mundo: as manifestações na Madre Deus, as lendas, as histórias de troncoso, as festas juninas, o Carnaval, enfim, todo o universo mágico que tornou São Luís uma cidade diferente, especial. O Barrica poderia ter nascido uma versão mais arrojada dos novilhos dominantes da Ilha, mas foi concebido  nas rodas de música e nas buscas teatrais, por isso, veio ao mundo como uma miniatura tímida, mas que logo se revelou dono de uma força cultural avassaladora e de um incontrolável poder de encantamento.

Começou tímido, com apenas 21 brincantes liderados por Cláudio Pinheiro, acompanhados por um grupo musical composto por pouco mais de uma dúzia de instrumentistas, entre eles o seu criador José Pereira Godão. O primeiro passeio se deu nas ruas da Madre Deus, depois de ser batizado na Igreja de São Pedro e na Casa das Minas. Depois disso, ganhou o mundo e nunca mais parou, acumulando mais força e prestígio a cada ano. Sua existência se tornou tão rica que meses mais tarde, no Natal daquele ano, os integrantes da Companhia Barrica de Teatro de Rua ganharam as ruas e igrejas com a ladainha Natalina da Paixão e, tempos mais tarde, invadiram o Carnaval com o Bicho Terra, que desde então contagia e arrasta multidões durante o reinado de Momo.

Ao longo de 30 anos, turbinado pela música magistral dos mestres José Pereira Godão e Luis Bulcão, o Boizinho Barrica foi se ajustando, enriquecendo o seu vestuário, aprimorando o seu bailado extasiante das suas bailarinas e melhorando cada vez mais sua música. Suas indumentárias feitas de fibra de palha e adornadas com fitas, fitilhos, paetês, miçangas, canutilhos – montados com a ponta da agulha por mestres do cerzimento a mão – e outros adereços as tornam únicas, mágicas, perfeitamente ajustadas ao enredo do folguedo. O bailado é também único, e se dá numa perfeita harmonia entre os brincantes, que traduzem, à maneira do Boizinho, os movimentos de cada sotaque, como o frenesi intenso do boi de zabumba, o bailado progressivo do sotaque de orquestra, a dança cadenciada e contagiante ao som de matracas e pandeirões, passando também pela manhosa e instigante sensualidade do cacuriá e a intensidade pesada do tambor de crioula, e ainda ao toque forte e quase mágico das caixas do Divino.

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Inácio e Roberto: as vozes do Barrica

A música do Boizinho Barrica, que move o seu corpo de dança, é um item especial. Primeiro, pela qualidade e a beleza das composições de José Pereira Godão e Luiz Bulcão. E depois pela interpretação magistral de Inácio Pinheiro e Roberto Brandão, vozes poderosas e contagiantes, que ao longo dos anos se tornaram as grandes marcas registradas do mais diferenciado folguedo junino do Maranhão. Difícil resistir a “Morenhinha”, de Bulcão na voz de Inácio, como também é especial ouvir “A Ilha”, de Godão na voz de Brandão, não havendo ainda como não se curvar ante a bandeira vermelha com a pomba branca ao ouvir “Divino Santo”, de Godão, na voz de Inácio. Igualmente contagiantes são “O mar”, “Adorada estrela”, “Quero, quero”, “Festa”, “Estrela boieira”, “Régia” e muitas outras toadas e ladainhas que estão gravadas na memória musical de cada maranhense. É uma música que se torna especial também pelos belos e ricos arranjos – muitos deles criados pelo mago das cordas Gordo Elinaldo -, executados por instrumentistas de primeira linha, aí nivelados os percussionistas, o grupo de cordas e o do sopro, que podem fazer bonito em qualquer palco do mundo.

O empenho em proporcionar um painel completo do que é a riqueza e a diversidade rítmica e musical dos folguedos juninos do Maranhão, com a paixão de um devoto fiel às suas raízes, transformou o Boizinho Barrica em ícone da cultura popular do Maranhão, ao lado de gigantes imortalizados como Maioba, Maracanã, São José de Ribamar, Pindoba, Morros, Guimarães e vários outros símbolos das manifestações juninas de base. Polêmicas eminentemente culturais, causadas pela quebra de padrões, e controvérsias de natureza política, provocadas pelo envolvimento da Companhia com os governos de Roseana Sarney, atraíram discussões – nem sempre justificadas – e muito mau olhado para o grupo. Nada disso sequer arranhou o brilho do Boizinho Barrica, que indiferente a questões que não lhe dizem respeito diretamente, continua sua busca apaixonada pela Estrela Dalva nos terreiros da Ilha e do resto do mundo, num bailado cada vez mais encantador.

 

A discografia do Boizinho Barrica

Bem Maranhão

Baiante

Maranhão de Ritmos

Estrela Amante

Trupiada

Caixinha de segredos

Terreiros de São João

Barrica Bumba Brasil

Barrica 20 Vivas Juninas

Em tempo: não constam dessa relação os discos do Bicho Terra nem os da Natalina da Paixão.

 

São Luís, 25 de Junho de 2016.

 

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