O governador eleito Eduardo Braide (PSD) caminha para construir o que ele mesmo definiu como “relação construtiva” com o presidente Lula da Silva (PT). Uma série de fatores que ganharam forma no resultado do 1º turno das eleições e se consolidaram com o desfecho do 2º turno da eleição presidencial, criou condições para a abertura de um diálogo institucional republicano no qual os interesses do Maranhão serão colocados à mesa, discutidos a contento e, se possível, viabilizados. E no cenário político que está sendo desenhado no estado e no plano nacional, tanto o governador eleito Eduardo Braide quanto o presidente reeleito Lula da Silva tem interesse em estabelecer uma convivência satisfatória. Até porque foi esse o recado, de clareza solar, que o eleitorado maranhense mandou aos dois nos dois turnos das eleições.
Um dos itens que favorecem a construção de uma relação positiva entre o próximo governador do Maranhão foi o recado que o eleitorado maranhense mandou via urnas com a eleição de Eduardo Braide em turno único, com vantagem esmagadora, e as votações que o presidente Lula da Silva recebeu no Maranhão no 1º e no 2º turno. Na sua mensagem nas urnas, a larga maioria larga dos maranhenses disse que quer o governador do Maranhão e o presidente da República somando esforços pelo desenvolvimento econômico, social e cultural do estado.
Na seara política, se não começa com a vantagem de ter sido um apoiador declarado da reeleição do presidente Lula da Silva, Eduardo Braide tem a seu favor o fato de que a sua neutralidade não criou qualquer obstáculo à reeleição do presidente. Além disso, não contou com o apoio do chefe da Nação nem do seu partido para a sua eleição. Ou seja, a uma situação de zero a zero no desfecho político das eleições, o que permite que os dois sentem à mesa do entendimento em condições de igualdade. Isso porque, se o governador Eduardo Braide tem interesse num parceria que lhe permita viabilizar o seu plano de Governo, o presidente Lula da Silva tem todo o interesse de devolver aos maranhenses em ações efetivas o que recebeu em votos e carinho político.
Ainda no plano político, as condições para uma boa relação do futuro governador com o presidente reeleito foram ampliadas com a eleição do deputado federal André Fufuca (PP) para o Senado. Aliado do presidente Lula da Silva, de quem foi ministro do Esporte e apoiador ativo do líder petista na campanha de reeleição, André Fufuca terá papel relevante na construção e manutenção de uma relação construtiva do Palácio dos Leões com o Palácio do Planalto a partir de janeiro. A esse esforço se somará a senadora Ana Paula Lobato (PSB), que já sinalizou nessa direção.
No campo da macro política, a posição do governador eleito Eduardo Braide se torna mais confortável na esteira do anúncio feito pelo presidente do seu partido, Gilberto Kassab, de que o PSD poderá participar do novo Governo Lula da Silva, o que, se ocorrer, lhe dará o status de aliado. Além disso, a posição de Eduardo Braide poderá ser reforçada com a eleição do governador eleito do Amazonas, senador Omar Aziz (PSD), que pertence à base governista e tem trânsito livre com o presidente Lula da Silva.
As condições para uma bola relação do Palácio dos Leões com o Palácio do Planalto no Governo Eduardo Braide estão criadas e podem prosperar. Mas nesses contexto estão as forças políticas que não se deram bem nas urnas. Uma delas é o vice-governador Felipe Camarão e o braço maranhense do PT, e a outra é o MDB controlado pelo governador Carlos Brandão. Essas forças poderão atuar isoladamente ou se juntar para fazer oposição ao novo Governo, ainda que os seus líderes estejam politicamente fragilizados.
PONTO & CONTRAPONTO
Na direita dividida, grupo de Maranhãozinho tem força para sobreviver no novo desenho político estadual
No jogo que começa agora no tabuleiro político do Maranhão, direita viu a sua divisão se acentuar, com a formação de pelo menos três grupos: um liderado pelo deputado federal Josimar de Maranhão, que controla o PL, um formado por bolsonaristas e cuja liderança está sendo reivindicada pela deputada federal eleita Mariana Carvalho (PL), e um terceiro, que tem o deputado federal reeleito Aluísio Mendes, que preside o Republicanos no estado.
De todos, o grupo mais forte é, de longe, o liderado por Josimar de Maranhãozinho, que desembarcará na nova Câmara Federal com três deputados e ocupará cinco cadeiras na futura Assembleia Legislativa.
Josimar de Maranhãozinho e seu grupo tiveram atuação equilibrada, adotando uma espécie de “neutralidade” na corrida ao Governo do Estado e se posicionando pela candidatura de Flávio Bolsonaro na corrida à presidência da República. Os seus representantes pediram voto para o candidato presidencial do PL, participaram dos eventos promovidos pelo bolsonarismo. Mas, curiosamente, apoiaram abertamente a candidatura de André Fufuca (PP) ao Senado, não deixando bem claro qual a sua preferência para a segunda vaga, tudo indicando que as forças do grupo foram liberadas para que cada um escolhesse quem bem entendesse.
O fato é que o grupo de Josimar de Maranhãozinho saiu das urnas bem sucedido e sem o rótulo de bolsonarista. Deu todas as indicações de que apoiou efetivamente a candidatura de Eduardo Braide (PSD) para o Governo do Estado. Seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro foi efetivo, porém sem a empolgação não manifestou qualquer simpatia pela candidatura do presidente Lula da Silva à reeleição.
Dos três grupos da direita que estão desenhados no Maranhão, portanto, o liderado por Josimar de Maranhãozinho é mais consistente e em condições de sobreviver no novo tabuleiro da política estadual.
Lahesio Bonfim pode perder prestígio por falar demais e ser muito contraditório
O senador eleito Lahesio Bonfim (Novo), vai aos poucos jogando fora as condições que ganhou nas urnas para se tornar uma referência política saudável. Nenhum problema com a posição de direita radical que adotou durante a sua campanha, e que reforçou com a confirmação da sua eleição. Afinal, ao contrário do que ele mesmo prega, aqui e ali, o Brasil é uma democracia plena, na qual todos têm o direito de dizer o que pensa, principalmente os detentores de mandato popular. Só que numa democracia séria, mesmo os detentores de mandato protegidos por imunidade parlamentar, dizer que pensa tem limites, e quando esses limites são extrapolados, o extrapolador pode responder pelo que diz.
É nesse contexto que o senador eleito Lahesio Bonfim está se situando de maneira preocupante. Ele tem se manifestado de maneira contundente e, ao mesmo tempo, contraditória. Suas falas são às vezes agressivas, mas também denotam recuos que poderiam ter sido evitados se tivessem partido de uma reflexão cuidadosa, principalmente num momento em que o País vive, em que um arroubo verbal ou uma inverdade bradada pode produzir consequências graves.
Quando desembarcou em Brasília pela primeira vez como senador eleito, dias depois do 1º turno da eleição, Lahesio Bonfim dirigiu-se ao ministro Flávio Dino, da Suprema Corte, aos gritos, com a seguinte ameaça: “Eu vou te pegar”. Como a ameaça não repercutiu como ele esperava, foi moldando o seu discurso. Tanto que na semana passada, ao falar sobre impeachment de ministros do Supremo, ele admitiu que o ministro Flávio Dino é o menos passível de sofrer o processo, a começar pelo fato de que ele é honesto e competente. O tal “Eu vou te pegar” pareceu uma bravata perdida no tempo.
Num rasgo de precipitação censurável para um senador eleito, na tarde do dia 25, quando a votação estava em pleno andamento, Lahesio Bonfim foi às redes sociais e convocou eleitores da direita a sair às ruas e comemorar, porque, segundo ele, a eleição de Flávio Bolsonaro (PL) já era fato consumado. “Não tem mais jeito, pode comemorar”, disse. Sua iniciativa chamou a atenção porque não se tratava da manifestação de uma perspectiva, mas sim de uma certeza, garantindo que apoiadores de Flávio Bolsonaro saíssem às ruas, para comemorar a vitória, por ele dada como fato consumado.
Nenhum político maranhense, eleito ou reeleito, cantou pedra eleitoral como verdade irreversível antes da hora, mesmo manifestando convicção de que os seus candidatos venceriam as eleições, nem prometeram degolar ministros do Supremo como uma ameaça explícita, menos ainda apontando o dedo para um deles.
Lahesio Bonfim já entrou para a crônica política recente como uma impressionante fonte de contradições. São Luís, 29 de Outubro de 2026.


