Conversa de Jucá com Machado mostra que Flávio Dino estava certo quando manteve o discurso de golpe contra Dilma

 

dino defende dilma
Flávio Dino discursa no Palácio do Planalto em defesa da presidente Dilma

A revelação da explosiva e reveladora conversa do senador Romero Jucá (PMDB), até ontem à noite ministro do Planejamento do Governo do presidente interino Michel Temer, e do ex-senador cearense e ex-presidente da Transpetro, a poderosa subsidiária da Petrobras para transporte de petróleo e derivados, Sérgio Machado (PMDB), rejuvenesceu o argumento da presidente Dilma Rousseff (PT) e do seu principal aliado fora da seara petista, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), de que o processo de impeachment é fruto de uma trama para tomar o poder, ou seja, um golpe. As declarações que vieram à tona  nas páginas do jornal Folha de S. Paulo não só reforçam a denúncia, como não deixam dúvida de que o governador Flávio Dino estava certo quando insistiu na tecla, mesmo depois que o Senado da República afastou a presidente e abriu caminho para a posse do vice-presidente Michel Temer (PMDB). Dino foi duramente criticado por alguns que, apressadamente, defenderam que ele deveria saudar Temer como “rei posto” e engolir o discurso em favor do mandato da presidente Dilma para entregar-lhe sua alma política como  “defensor dos interesses do Maranhão”. A Coluna registrou algumas vezes a impressão de que o político Flávio Dino parecia saber o que estava fazendo quando não se dobrou àquelas pressões.

Quando entrou para valer na briga contra o pedido de impeachment, ainda no ano passado, Flávio Dino adotou um discurso claro e direto defendendo a presidente Dilma Rousseff e não o Governo do PT. Nas suas muitas manifestações – discursos, entrevistas, artigos publicados em grandes jornais e mensagens nas suas contas nas redes sociais, especialmente o twitter -, ele vem batendo no bordão segundo o qual a presidente não cometeu nenhum crime que justifique o seu impedimento. Para ele – e para muitos outros intérpretes da situação -, “pedaladas fiscais” e decretos para justificar movimentação orçamentária são “escorregões” de gestor, que podem causar “puxões de orelhas” do Tribunal de Contas da União (TCU), mas não são crimes que condenem à extinção um mandato garantido por 54 milhões de votos.

Ao longo do embate, o governador do Maranhão em nenhum momento levantou a bandeira do PT, não disse uma frase que pudesse ser interpretada como uma manifestação de tolerância com as denúncias de corrupção contra o governo, como também não se posicionou contra a Operação Lava Jato. Nesse último item, criticou algumas decisões do juiz Sérgio Moro, mas sem maiores consequências, já que o próprio Supremo Tribunal Federal (STF) agiu para fazer as correções necessárias nas decisões polêmicas do magistrado-chefe da Operação. Nenhuma das suas manifestações conteve qualquer sinal ou evidência de que ele defendia uma ilegalidade ou um esquema de corrupção. A tecla em que insistiu bater foi só a de que o pedido de impeachment acatado pelo então presidente da Câmara Federal, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), não tem lastro, afronta princípios da Carta Magna, e, portanto, é um golpe.

A intrepidez com que defendeu suas posições ganhou projeção definitiva quando discursou no Palácio do Planalto em nome de juristas contrários ao impeachment  e defensores da legitimidade e da integralidade do mandato presidencial. Naquele momento até aliados avaliaram que ele deu um passo maior que as pernas, argumentando que extrapolou na exposição. Em vez de refletir sobre o que seus adversários e críticos disseram, ele reforçou suas teses nas redes sociais, tornando sem efeito qualquer observação crítica a respeito dos seus movimentos como aliado incondicional da presidente da República. E vem mantendo essa linha de ação sem dela se afastar um milímetro, correndo todos os riscos de tropeçar ou sofrer retaliações.

Agora, diante da revelação da conversa de Romero Jucá com Sérgio Machado, que contém as mais fortes evidências da trama por ele apontada, o governador Flávio Dino ganha um reforço e tanto à sua posição e ao seu discurso contra o impeachment. A revelação deu dimensão à suspeita de que por trás da fachada de legalidade que cobre o processo em curso no Senado há uma rede sombria de tramas, que, ampliada, compromete gravemente a já duvidosa  operação de derrubada da chefe da Nação.

 

PONTO & CONTRAPONTO

 

Conversa gravada e não revelada ainda colocaria o ex-presidente Sarney em situação de extrema dificuldade
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Sarney na conversa gravada por Machado; Lobão seria citado

Não será surpresa se os estragos da revelação da conversa entre o senador Romero Jucá e o ex-presidente da Transpetro e ex-senador Sérgio Machado alcançarem o Maranhão, atingindo fortemente o senador Edison Lobão e, por incrível que possa parecer, o ex-senador José Sarney. O sintoma de que isso pode acontecer está numa nota divulgada pelo colunista de O Globo, Lauro Jardim. No texto, ele afirma que conversou com uma fonte que ouviu duas gravações feitas por Sérgio Machado, sendo uma com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB) e outra com o ex-presidente José Sarney (PMDB). Jardim informa que sua fonte afirmou que o conteúdo da conversa divulgada ontem “é fichinha” diante das travadas por Machado com Renan e Sarney. O colunista de O Globo, que publica sua coluna aos domingos em O Estado do Maranhão, prevê que se as duas conversas forem reveladas, os pilares da República serão abalados de vez. Outras fontes avaliaram que se o bate-papo entre Jucá e Machado destronou o primeiro do Ministério do Planejamento, que ganhou como prêmio pelo seu desempenho nas articulações que afastaram a presidente Dilma em meio ao processo de impeachment, as conversas com Sarney e Renan poderão resultar em problemas graves para os dois e até na desmoralização do impeachment e a volta da presidente Dilma ao Palácio do Planalto.

 

Onda de incêndio a ônibus causa debate quente entre situação e oposição na Assembleia Legislativa
incendiários na al
Cabo Campos, Júnior Verde, Wellington do Curso, Bira do Pindaré, Eduardo Braide e Rogério Cafeteira: debate na AL

Os ataques incendiários a ônibus ocorridos em São Luís na última semana esquentaram ontem o embate entre situação e oposição na Assembleia Legislativa. Mesmo sem vítimas, os ataques – 15 ao todo, com oito ônibus veículos incendiados – instalaram um clima de medo na Capital e quebraram a normalidade no sistema de transporte de massa, e na contrapartida, uma reação dura da Polícia, que resultou até ontem à noite na prisão de 35 suspeitos e, finalmente, no desembarque de forças federais, que entrarão hoje em operação na segurança da cidade.

Em tom crítico, Cabo Campos (DEM) declarou: “As facções estão se organizando, mandando mensagem para cá e para lá. Parabenizo a ação forte da Polícia, com mais de 35 presos, mas precisamos melhorar a diária dos nossos policiais”, disse o deputado Cabo Campo (DEM), provocando o debate. Avaliou que os policiais vindos do interior para reforçar o policiamento da Capital estão submetidos a uma escala muito pesada de trabalho e ganhando uma diária de R$ 150, “que ainda não foi paga”. E provocou em tom de reclamação: “Os militares da Guarda Nacional já chegam aqui com a diária no bolso de R$ 272,00 e vão ter um bom alojamento, uma boa alimentação e uma escala digna de trabalho. Por que não darmos essas mesmas condições aos nossos policiais?”.

O deputado Júnior Verde (PRB), que é policial civil e preside a Frente Parlamentar de Segurança Pública e Privada, manifestou-se favorável à vinda da Guarda Nacional, mas advertiu que a medida é paliativa. Verde sugeriu medidas como a continuidade dos concursos públicos;  investimentos em viaturas e em armamento e a implantação de bloqueadores de sinais de celulares em presídios, a imediata transferência de todos os líderes de facções que atuam dentro dos presídios e adotar leis mais duras contra a bandidagem.

O deputado Wellington do Curso (PP) avaliou que Segurança Pública é um problema estrutural e que todos são responsáveis. “Enquanto não chega o braço do Estado, enquanto não chegam as benfeitorias, chega o braço da criminalidade, do crime organizado. No Bairro do Coroadinho, por exemplo, temos 65% dos jovens envolvidos com algum tipo de crime ou consumo de drogas. Pedimos ao governador mais empenho, mais atenção na parte estruturante do governo do Estado, para que possamos conter essa onda de violência”, observou.

O deputado Bira do Pindaré (PSB) saiu em defesa do Governo ao afirmar que a população percebeu uma clara mudança de postura do Estado no enfrentamento da violência. Para ele, o que se viu nesses últimos dias em São Luís é uma clara reação da criminalidade ao avanço da Polícia com as blitzen, com o enfrentamento ao tráfico de drogas, com a presença do policiamento nas ruas. “O governo não ficou omisso, não se escondeu e tomou todas as providências possíveis ao seu alcance para dar respostas imediatas a esses episódios. Eu vi o secretário de Segurança na rua, vi o governador na rua, lá no Coroadinho. Parabenizo o governador Flávio Dino, o secretário de Segurança e a Polícia Militar pela atitude. É isso que se espera de um governo”, ressaltou.

Mas no contrapeso, o oposicionista Edilázio Júnior (PV) destacou a mudança de discurso de alguns deputados da Casa e do governador Flávio Dino diante dos mesmos fatos já ocorridos em São Luís no Governo passado. “À época, Flávio Dino e seus liderados diziam que era falta de pulso, falta de comando. Agora não. Agora é porque o governo está combatendo o crime, está indo pra cima da bandidagem. Isto é querer brincar com a opinião pública, é querer brincar com os maranhenses”, ressaltou. E foi mais longe: questionou por que o governador não convoca os excedentes do último concurso da Polícia Militar e preferir recorrer à ajuda do Governo de Temer, que ele acusa de golpista, para socorrer o Maranhão com o envio da Força Nacional. “Sairia mais barato chamar os excedentes, traria mais emprego e mais estabilidade para o nosso Estado”, argumentou.

Por sua vez, o deputado Eduardo Braide (PMN) disse que é inadmissível que São Luís fique refém de uma situação como essa. “A Força Federal deve ser chamada para dar sua contribuição, principalmente no que diz respeito ao serviço de inteligência. Esta Casa precisa tomar a frente e se alguma medida legislativa estiver ao alcance, temos que colocá-la urgentemente no ordenamento jurídico para dar mais segurança, para dar mais tranquilidade a essa população que tanto sofre”, defendeu.

Finalmente, o líder do Governo, deputado Rogério Cafeteira (PSB), afirmou que o Governo não negociou e nem negocia com facções e destacou o trabalho feito pela Polícia Militar e Civil no enfrentamento da onda de ataques. “Eles merecem nossa referência, nossa admiração e respeito. Eles estão no enfrentamento e a Força Nacional vem para ajudar. Nós vamos enfrentar a crise e vencer. Aqui não cabe a nós fazer comparação e nem politizar um problema deste, que é um problema de toda a sociedade”, observou.

 

São Luís, 23 de Maio de 2016.

 

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