Com atraso de década, acordo do Brasil com os EUA pode transformar Alcântara em centro de ponta da corrida espacial

 

CLA: um lançamento de foguete experimental, a plataforma de lançamento, uma panorâmica das instalações do Centro  e um registro de visitantes ouvindo explicações sobre foguete

Quase quatro décadas depois de ter sido planejado, 16 anos após ter sido palco da maior tragédia que atingiu a área científica e tecnológica do País, com a explosão da sua plataforma, e de ter sido objeto de uma polêmica míope, que retardou o seu desenvolvimento como uma das bases mais promissoras entre as que movem a corrida espacial em todo o planeta, o Centro de Lançamento de Alcântara (CLA) volta a ser alvo de atenções, discussões e decisões do Governo sobre o seu futuro. É que no dia 19, o presidente Jair Bolsonaro (PSL) firmará com o colega norte-americano Donald Trump um acordo pelo qual o Brasil abre o CLA aos Estados Unidos, que poderão utilizá-lo para lançar seus foguetes. O acordo mantém salvaguardas tecnológicas, mas agora em um nível menos rigoroso, podendo o Brasil se beneficiar da tecnologia ianque, como também a questão da soberania parece bem mais amarrada, sem danos visíveis. E o que é mais interessante: o CLA será explorado comercialmente, tornando-se parte do bilionário mercado da indústria espacial, que cresce aceleradamente a cada ano, devendo o Maranhão auferir gordos dividendos em futuro próximo.

Alcântara se tornou alvo do interesse das potencias da corrida espacial nos anos 80 do século passado, quando o embrião do Programa Espacial Brasileiro (PEB) acontecia na Barreira do Inferno, no Rio Grande do Norte. Estudos realizados em todo o planeta durante a corrida que levou o homem à Lua revelaram que, situada na latitude 2°13’ sul, uma área próxima à histórica Alcântara é ideal para o lançamento de foguetes, que, grosso modo, lançado de lá, sobe mais rápido e gasta menos combustível, potencializando dois itens fundamentais dos lançamentos destinados a romper as camadas atmosféricas da Terra: tempo e custo. Alcântara é melhor do que Cabo Canaveral, nos EUA, do que a base francesa de Kourou, na Guiana Francesa, e melhor que as várias bases russas, ucranianas, e por aí vai. Isso fez com que as grandes potencias mirassem a área maranhense como o sonho de consumo da corrida espacial.

Tudo começou em março de 1983, quando o ainda Governo militar começou a implantação do CLA, destinando-lhe mais de 600 quilômetros quadrados de área exclusiva. Surgiu logo o primeiro e mais espinhoso problema: comunidades quilombola e agrícolas reagiram à imposição de serem remanejadas para agrovilas planejadas pelos militares. Foram anos de sai – não sai, vai – não vai, tensão, truculência e ações judiciais, que se arrastam até hoje. O CLA andou bem, apesar das questões periféricas. Com a chegada de José Sarney à presidência da República, a chamada “Base de Alcântara” ganhou impulso, com o robustecimento do PEB, com gordos investimentos na estrutura, na qualificação de mão-de-obra especializada e na segurança.

O aumento da sua importância atraiu de vez a cobiça norte-americana pela área, levando o Governo FHC a propor um acordo pelo qual usaria o CLA comercialmente. A proposta básica era a seguinte: a Nasa utilizaria o CLA para lançar seus foguetes, pagaria por isso, mas com uma condição inaceitável: o Brasil não poderia usar o dinheiro recebido para custear projetos de desenvolvimento dos seus próprios foguetes. Esse item desencadeou uma reação em cadeia, liderada pelos partidos de esquerda e engrossada por outros segmentos, que viram na cláusula impositiva uma inaceitável interferência do Tio Sam na soberania do Brasil. Ocorrida exatamente na virada do século (2000), a polêmica da soberania puxou outros itens do acordo, desencadeando uma celeuma que resultou na rejeição total do acordo pelo Congresso Nacional. Quando deputados e senadores debatiam, FHC chegou a um acordo com Bill Clynton, derrubando a restrição, mas o seu visível enfraquecimento político e o acirramento dos ânimos no Congresso Nacional inviabilizaram o projeto por inteiro. O desfecho causou perplexidade no mundo inteiro, porque os envolvidos na corrida espacial não conseguiram entender o motivo de o Brasil abrir mão de entrar para o clube.

Mesmo isolado, o CLA conseguiu fazer cerca de quatro dezenas de lançamentos de foguetes experimentais, que foram aumentando de tamanho até chegar ao VLS-2, que estava sendo preparado para ser lançado em grande estilo no dia 22 de Agosto de 2003. Para tanto, a quase totalidade da equipe de especialistas formada ao longo de anos pelo PEB encontrava-se em Alcântara, cuidando dos mínimos detalhes para aquele que seria um marco na história do CLA. E exatamente às 13h28m daquele sábado, um dos foguetes foi acionado antes da hora, causando em segundos uma explosão que pulverizou o artefato, destruiu a plataforma de lançamento e matou 22 técnicos, no que entrou para a História como uma das maiores tragédias da corrida espacial em todo o planeta. A explosão levou o Programa Espacial Brasileiro a uma regressão de décadas.

Durante os Governo de Lula da Silva e de Dilma Rousseff, o PEB viveu um período de recuperação, mas colocou o Brasil diante de uma realidade crua: dispõe de um pedaço de terra e uma estrutura que pode render milhões e milhões de dólares por ano e ainda agregar tecnologia para turbinar os seus próprios projetos na área. Sem querer acordo com os EUA, o Governo Lula ensaiou uma improvável parceria com a Ucrânia, que fora o centro nervoso do programa da antiga União Soviética na corrida espacial. Só que, agora como um país autônomo, que se mantém sob forte tensão com a Rússia, a Ucrânia detém conhecimentos e sucatas, não dispondo de capital para tirar seus projetos da prancheta. Mesmo assim, o Brasil firmou um acordo com a Ucrânia em torno do projeto Cyclone, um revolucionário foguete de médio porte. Para tanto, foi criada uma empresa, a Cyclone Space, que não saiu do papel pela incapacidade de a Ucrânia honrar com a parte que lhe coube. O acordo fracassou.

Durante o seu Governo, o presidente Michel Temer tirou o acordo da gaveta e reabriu as negociações com os EUA, conseguindo refazer vários itens polêmicos, entre eles o que gerou a crise em 2000. O presidente Jair Bolsonaro vai entrar para a História pegando carona sem qualquer mérito e sem ter dado uma única contribuição efetiva ao acordo que assinará com Donald Trump. Mas, independentemente desse detalhe, o acordo com os EUA para uso comercial do CLA deve produzir bons resultados para o Brasil e para o Maranhão.

 

 

PONTO & CONTRAPONTO

 

Luis Fernando vai mesmo ser secretário. Por quê?

Luis Fernando e Flávio Dino: diminuindo a distância política que os separava em 2014

O governador Flávio Dino (PCdoB) confirmou ontem que Luis Fernando Silva (PSDB) renunciará ao cargo de prefeito de São José de Ribamar para assumir a Secretaria de Estado de Programas Estratégicos. Confirmou também que Simplício Araújo (SD) deixará a Câmara Federal para reassumir a Secretaria de Indústria e Comércio, abrindo vaga para Gastão Vieira (PROS). A posse dos dois novos secretários ocorrerá sexta-feira (15).

Com a confirmação, o governador coloca ponto final numa informação, inicialmente especulativa que espantou o meio político, gerando muitas interrogações, a partir de uma básica: como é possível um político com muita estrada pela frente renunciar ao comando de um dos cinco maiores municípios do Maranhão, ligado à Capital, que recebe FPM Especial e tem forte vocação turística, para assumir uma Secretaria de Estado que garante mais incertezas do que resultados palpáveis? Mesmo que seja um município com enormes desafios – dois mega-conjuntos habitacionais aumentaram sua população em mais de 60 mil pessoas de uma hora para outra, por exemplo -, isso não justifica a guinada surpreendente.

Em política, renúncia tem de ser sinônimo de passo à frente, tentar um voo mais alto; no caso, seria perfeitamente justificável se tivesse renunciado em abril de 2018 para disputar o Governo do Estado, uma vaga no Senado ou na Câmara Federal. A pasta que lhe será entregue pelo governador Flávio Dino não é algo menor, mas qualquer avaliação honesta concluirá que ao fazer a troca de um mandato desse porte por um cargo de Secretário de Estado, ele reduz expressivamente o seu peso político. A menos que isso seja parte de um plano que o leve a ser candidato a prefeito de São Luís ou a governador, mas não parece ser isso o que está acontecendo.

E chama também a atenção o fato de que com a sua renúncia, São José de Ribamar será entregue ao vice-prefeito Eudes Sampaio (PTB), um político gente boa, respeitado, mas sem liderança para comandar o barco.

 

Projeto de Hospital agita os bastidores da corrida sucessória em Imperatriz

Marco Aurélio, Antônio Pereira e Assis Ramos, posições diferentes sobre projeto de hospital em Imperatriz

A decisão do governador Flávio Dino de construir o Hospital de Urgência em Imperatriz foi o tema dominante na Assembleia Legislativa na tarde de segunda-feira. Um dos nomes bem situados entre os lembrados para disputar a Prefeitura de Imperatriz, o deputado Marco Aurélio (PCdoB) foi à tribuna para enaltecer a medida e detalhar o projeto. O mesmo fez o deputado Antônio Pereira (DEM), que é médico, destacando a importância do projeto e revelando que vai se engajar no processo para apoiar a construção do hospital “no que for possível”. Nenhum dos dois, porém, falou nos petardos que o prefeito de Imperatriz, Assis Ramos (MDB), vem disparando contra o projeto, insinuando que a iniciativa não tem futuro e que o Hospital de Urgência anunciado na semana passada pelos secretários de Saúde, Carlos Lula, e de Infraestrutura, Clayton Noleto, na presença de parlamentares e de pessoas renomadas da cidade, como o ex-prefeito Ildon Marques, por exemplo, não será construído.

Observadores atentos enxergam no projeto de construção do Hospital de Urgência o grande tema da campanha para a prefeitura de Imperatriz, podendo ser também a chave para o desfecho da eleição. Nos bastidores, é corrente a seguinte avaliação: se o hospital não sair do papel, o prefeito Assis Ramos tem alguma chance de reeleição, mas se a construção for, de fato, iniciada, o prefeito dificilmente renovará o mandato.

São Luís, 13 de Março de 2019.

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