Há meio século, Sarney lançava “Norte das Águas”, revelando o “Maranhão profundo” e o domínio dos coronéis

 

José Sarney, aos 90 anos, meio século depois do lançamento de “Norte das Águas”, que já ganhou várias edições no Brasil e está traduzido em vários idiomas, como inglês, francês e chinês

Há meio século, mais exatamente na noite de 03 de Março de 1970, o auditório da Academia Maranhense de Letras, no centro de São Luís, foi palco de um evento marcante para a tradição literária do Maranhão. Ali, na presença de escritores, poetas, jornalistas e políticos, o então governador José Sarney comemorava seus 40 anos dando um passo audacioso, surpreendente e definitivo para a consolidação do escritor José Sarney ao lançar “Norte das Águas”, livro de contos que revelou o chamado “Maranhão profundo”. Escrito numa linguagem original, elaborada a partir da realidade do mundo revelado nos textos nele reunidos, o livro não só aumentou expressivamente a riqueza literária maranhense, mas também ampliou a literatura regionalista nacional, enriquecendo-a com as imagens e estórias de um Brasil distante, desconhecido, marcado por disputas, ódio, intrigas, violência, sexo, mas também por ternura, amor e poesia, tudo   mostrado com traços leves, mas evidentes, de realismo fantástico, em ascensão naquele momento. Naquele mesmo momento, iniciava a caminhada federal que em 10 anos o levaria à Academia Brasileira de Letras e em 15 à Presidência da República.

“Norte das Águas” foi recebido com surpresa pela crítica, que o saudou como um acontecimento auspicioso no universo literário brasileiro. O livro trouxe à tona a outra face do José Sarney político intelectualizado, humanista por base filosófica e democrata por princípio e convicção, que derrubara a velha ordem nas urnas e estava revolucionando os costumes políticos no Maranhão. Revelou a dimensão do José Sarney – até então só conhecido no mundo literário como poeta, por “Canção Inicial”, e jornalista – como um prosador de talento, com densidade, digno de ser incluído na lista dos mestres da literatura regionalista brasileira, como José de Alencar (Iracema), José Cândido do Carvalho (O Coronel e o Lobisomem), Guimarães Rosa (Grandes Sertões, Veredas), Raquel de Queiroz (O Quinze) e Graciliano Ramos (Vidas Secas), entre outros. “Norte das Águas” é exatamente o que se disse dele até hoje: um bom livro, de leitura cativante, daquelas que prendem o leitor, principalmente aquele que enxerga nas estórias, na linguagem, nos tipos e nos cenários a sua ancestralidade.

Escrito nas horas de folga da sua intensa e agitada agenda como governador – geralmente no próprio gabinete no Palácio dos Leões, após o expediente, segundo a biógrafa Regina Echeverria – e lançado pela Livraria e Editora Martins, com ilustração do pintor e escultor Antônio Almeida, “Norte das Águas” surpreende já no primeiro texto, intitulado “Abertura do tanto-faz”, uma impagável conversa de canoeiros do Pericumã, que termina com a mais perfeita tradução do Maranhão de ontem, mas que também ainda tem um pouco a ver com o atual: “Eta Maranhão grande aberto sem porteira…”.

“Brejal dos Guajás”, que abre a série de contos, é uma obra definitiva, daquelas sem ter o que tirar nem o que por, e na qual José Sarney traduz, mesclando crueza e lirismo, a realidade numa cidade perdida no sertão maranhense, onde dois coronéis, Chico Javali e Né Guiné, primos carnais, mas adversários políticos figadais, dividem, com as suas próprias leis, mas amparados pelo poder emanado de São Luís, a população ao meio, cada um com seus aliados, sua banda de música, seus espertos conselheiros, seus espiões e seus capangas, com a mediação de um padre e, às vezes, de uma respeitada dona de barraca na feira. As maquinações, os fuxicos, a espionagem e lances como a chegada do primeiro Jipe e da primeira amplificadora agitam o Brejal. Com a proximidade das eleições, a disputa recrudesce, ganha tensões de guerra civil, ferve manipulações e traquinagens, que culminam com uma burra sem rabo e um cachorro de rua fuzilado. Abertas as urnas, um impasse com a divisão quase integral do eleitorado e um acordo entre os dois coronéis, negociado pelo padre, para anular o voto excedente e não dar vez para a oposição.

Na sequência, três contos de puro realismo, relatando situações do “Maranhão profundo” até pouco tempo atrás. O primeiro conta a vida de extrema violência dos primos “Boastardes”, Vitofurno, Mamelino e Olegantino, que movidos pela crueldade matavam pelo mais fútil dos motivos, e quando não matavam, castigavam cruelmente até mulher grávida, mas que, mergulhados na sua própria brutalidade, usada como modo de vida, acabam por se matar. Os “Bonsdias” relata a traumática existência dos primos Rosiclarindo, que desmaiava ao ver sangue; Brasavorto, que ao ver cabeça de peixe se transtornava, tentava arrancar os cabelos e soltava um grito que apavorava quem ouvia; e Florismélio, que ao sentir alguns cheiros, a começar pelo de unha, era atacado por uma crise de soluços que durava dias e noites. Os três viveram com uma mulher, Rita Nanica. E os “Boasnoites”, Amordemais, Dordavida e Flordasina, parentes carnais, “encantados do amor da terra, das aguadas e dos campos”, cantadores, contadores de estórias e hábeis na arte de seduzir donzelas e mulheres casadas e infelizes.

Em “Merícia do Riacho Bem-Querer”, José Sarney conta a paixão trágica de Merícia, a mais sonhadora das três filhas bem cuidadas e bem guardadas do coronel Cipriano Feitosa, e Pedroca, mulato que, ao contrário de muitos outros, trabalhava no comércio do coronel como homem de confiança. Merícia, que sonhava conhecer o mundo e os homens, e Pedroca, que não tinha ambições, se apaixonam, fogem, vivem uma noite de amor, mas são apanhados e assassinados pelo coronel e seus capangas. Já em “Joaquim, José, Margarido, filhos do velho Antão”, o contista vai fundo na questão da terra, no poder dos coronéis de se autoproclamarem donos de tudo e de todos, e da cruel relação de troca entre o trabalhador e o dono da terra. Nesse conto, no qual os Arrudas enfrentam, com valentia extraordinária, o poder violento do coronel José Raimundo, José Sarney registra, de passagem, a “invasão” do Maranhão por levas de famílias cearenses, que fugiam da trágica seca que se abateu sobre o Nordeste nos anos 50, em busca das fartas e boas terras e das águas maranhenses.

“Norte das Águas” reúne ainda os contos “Beatinho da Mãe de Deus” e “Dona Maria Bolota que emprestava de bom coração”. No primeiro, que conta a trajetória de João do Zeferino, que se transformou num beato poderoso, Sarney registra o peso e a influência das crendices populares no “Maranhão profundo” e a carga explosiva que ela produz quando se choca com a política. O último relata o pragmatismo de Maria Bolota, que herdou do marido, um carcamano rico, um comércio, dinheiro e muito apego ao que lhe pertencia. Mostra também as duas faces da Igreja Católica naquele tempo e naquela região, a mais humana, verdadeiramente cristã, na figura de um padre pobre, e a negação dela na pele de um bispo esperto e arrogante.

Como observaram alguns críticos, em “Norte das Águas” Sarney foge do sociologismo pretencioso, das interpretações “dialéticas” da História e transforma em preciosidades os movimentos e os dizeres numa sociedade quase feudal. Mas vai fundo nos costumes, no dia a dia daquele Maranhão da primeira metade do século passado, quando as elites controlavam a política por meio dos coronéis, numa realidade em que imperava o mando dos “senhores” da terra e os agentes do Estado por eles controlados, como o delegado, o coletor de impostos e o tabelião. Salvo em casos isolados como a valentia dos Arrudas, migrantes cearenses, nada podia contra a aliança do poder político com o poder da força. Quando escreveu esses contos, José Sarney tinha menos de 40 anos, comandava um governo mudancista em todos os aspectos, exatamente com o objetivo de transformar o Maranhão dos chefes políticos num estado sintonizado com a modernidade. Na sua luta política, enfrentou como adversário o maior e mais ativo e influente dos caciques políticos da época em todo o País, o senador Vitorino Freire, e os coronéis e seus agentes. Andara pelo Maranhão inteiro e sabia exatamente sobre o que estava escrevendo. Pode-se dizer, numa interpretação realista plena, que o que está contado em “Norte das Águas”, mesmo com seus personagens fictícios, não é exatamente ficção.

No discurso que fez na noite do lançamento na Academia Maranhense de Letras, o padre João Mohana, já naquele momento um dos intelectuais mais respeitados do Maranhão, saudou “Norte das Águas” dizendo:  “Nestas páginas está a gente com sua força, sua vida, seus valores, sua sabedoria, suas mazelas, suas esperanças, seus desalentos, seus mitos, suas lendas, seu folclore, seu lirismo, sua violência, suas dores, sua história”. Não foi sem razão que, ao ler livro, que encontrou por acaso na biblioteca de um navio em que viajava, Jorge Amado, que não conhecia Sarney, declarou: “Norte das Águas”, último livro que mais li e gostei, me parece a revelação de um grande contista, de um grande ficcionista brasileiro”. Como ele, o celebrado antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, escreveu para José Sarney sobre “Norte das Águas”: “Com o seu texto, eu reencontrei o sabor, a linguagem carregada de imagens, sobretudo a qualidade profundamente humana da sua população. Eu amei e admirei o seu livro”.

Ao longo de meio século depois de lançado, “Norte das Águas” ganhou cinco edições no Brasil e está traduzido para o português de Portugal, para o francês, o espanhol (Espanha, México e Venezuela), o inglês, o alemão, o russo, o romeno, o búlgaro e para o chinês. Depois dele, Sarney lançou outras obras, como os celebrados romances “O Dono do Mar”, também traduzido para vários idiomas, e “Saraminda”, este último ambientado no Amapá. Mas, para muitos, “Norte das Águas” é a obra mais original de José Sarney, exatamente por traduzir o profundo, belo e feio, áspero e suave, em textos com momentos de crueza e de pura poesia. “Os contos de ´Norte das Águas` parecem escritos sob a regência de Guimarães Rosa. Há uma explosão semântica”, comentou o escritor Marcelo Rubens Paiva. É como escreveu Josué Montello: “A literatura de José Sarney nada tem de engajada ou comprometida. É literatura mesmo, no sentido alto e nobre da obra de arte”.

Meio século depois de lançado, “Norte das Águas” continua leitura essencial para quem quer compreender o Maranhão, sua gente e sua História.

São Luís, 18 de Julho de 2020.

2 comentários sobre “Há meio século, Sarney lançava “Norte das Águas”, revelando o “Maranhão profundo” e o domínio dos coronéis

  1. Belo texto sobre o escritor e politico José Sarney. O olhar distanciado possibilita uma apreensão mais lúcida do evento literário sem dissociá-lo do homem que trilhou o caminho do poder e da literatura, aventura rara e difícil em se tratando de alguém que compatibilizou ao mesmo tempo, o exercício das duas escrituras.
    A palavra, em seu ornamento literário e político, foi usado por Sarney com inegáveis méritos, em que pese sua posição de nascido em um dos estados mais pobres do país, e dele ter assumido a primeira magistratura.
    A leitura sobre Sarney permite vislumbres e mergulhos posteriores sobre aquele que, sob o signo da longevidade física em ação, abarcou as duas faces de moeda de uso, daquele que se tornou a personalidade mais rica da história do Maranhão mas ao mesmo tempo comandou o Estado de maneira direta e indireta por muitas décadas.

  2. Beleza de texto, rico em informações, justo no reconhecimento da importância e do valor literário de Norte das águas, um livro realmente marcante na história da literatura brasileira dos nossos tempos. Parabéns, meu caro amigo Corrêa!

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