
capa da edição comemorativa dos 50
anos; fotos menores: Josué Montello
entre capas de outras edições
Há 51 anos, dois meses e alguns dias, Josué Montello colocou ponto final na mais densa e robusta peça da sua ampla e rica obra literária, publicada em meados de 1975, o monumental “Os Tambores de São Luís”, um registro alentado e precioso da rica e cruel São Luís escravagista e que virou um clássico da literatura de língua portuguesa. Nele, o mais importante e profícuo escritor maranhense conta a rica e trágica saga do negro Damião, que conheceu o inferno do cativeiro nos confins de Turiaçu e o misto de purgatório e paraíso forjado pela alforria na Capital da Província, com a consciência de um latinista, que vive o apogeu, a decadência e a extinção do império da chibata e, logo em seguida, o advento da República. Toda a sua trajetória e os fatos que sacudiram a cidade e o império brasileiro são lembrados por Damião em uma só noite, durante uma caminhada solitária iniciada no antigo Largo de Santiago na Praia Grande até a Gamboa, nas proximidades da praia do Jenipapeiro.
Embalado pelo som intenso dos tambores da Casa das Minas – que foram referência espiritual maior ao longo da sua existência -, pelo pálido clarão dos lampiões a gás, pela noite clara e pelos sopros refrescantes da viração, Damião, com a sua mente privilegiada, a sua memória rica, e a sua consciência de negro livre, que queria ser padre e que para tanto foi culturalmente forjado nos estudos de latim, filosofia, história e na leitura dos grandes clássicos da literatura, relembra a sua saga e a trajetória de São Luís até a abolição e à chegada da República.
Ao longo dessa caminhada de algumas horas, tempo em que, sob o peso dos seus mais de 80 anos, se desloca para conhecer o seu primeiro trineto, que levaria o nome do seu pai, o líder negro Julião, e que o perde o único filho homem sem saber, num assassinato que por pouco não presenciou, Damião busca nos recantos da sua ainda prodigiosa memória, fatos que vivenciou na São Luís escravista, movimentada pela força desumana do relho. E nesse roteiro histórico, Josué Montello usa uma sutil, e por isso mesmo genial, mescla de ficção e realidade, colocando Damião frente a frente com personalidades poderosas daquele tempo, como a matrona Ana Jansen, mostrada como símbolo maior da arrogância escravista; o poeta Sousândrade, um sonhador militante do ideário republicano, e o promotor Celso Magalhães, um humanista que ousou enfrentar os senhores de escravo nos tribunais. O escritor o coloca lado a lado com personagens poderosos na luta contra a escravidão, como Padre Policarpo, conhecido como Tracajá por ser mulato, e que se impôs pela sua cultura avassaladora e foi o grande predecessor do protagonista; as negras alforriadas Genoveva Pia e Dona Santinha, que enriqueceram com trabalho duro e usaram seu dinheiro na luta pela libertação; e o genialíssimo Barão, um escravo que nunca apanhou e que atua como uma espécie de consciência crítica de Damião, chamando-lhe à razão sempre baseado numa lógica cortante, quase cartesiana.
Esses e outros personagens, como o brutal senhor de escravo Doutor Lustosa, dono da Fazenda Bela Vista, onde nasceu e cresceu Damião; Julião, pai do protagonista, líder negro que se rebelou e fundou quilombo e terminou devorado por piranhas, mas deixou um legado de altivez; Nhá-Biló, a donzela branca que viveu sua tragédia num quarto de fazenda cheio de bonecas e atormentada por delírios sexuais, e o bispo D. Manuel Joaquim da Silveira, que tirou Damião do cativeiro, deu-lhe base cultural, mas não teve força para torna-lo padre. Em meio a esse universo, movimentam-se governadores, bispos, padres, professores – como Sotero dos Reis, por exemplo -, artistas, jornalistas, policiais, escravos, negros livres, prostitutas e militantes abolicionistas, que se dividiam entre monarquistas, como o próprio herói Damião, e republicanos, como o poeta Sousândrade.
Num esforço hercúleo, só possível a um gênio literário, Josué Montello entremeia a saga de Damião, com seus altos e baixos, com a realidade da São Luís oitocentista, uma cidade culta, com linha direta para a Europa, mas naquele tempo marcada pela ferida escravocrata. Ele enriquece grandemente a estada de Damião no seminário, mostrando o duro e perverso jogo de poder que marcou as relações da Igreja, por seus bispos, com governantes da província e chefes militares de então. Ao mesmo tempo, expõe a crueldade, a vilania e a hipocrisia de muitos membros do clero, que, com raríssimas exceções – como o Padre Policarpo, por exemplo -, distorcia os ditames bíblicos para justificar o apoio à desumanidade escravista. O próprio Damião, que acumulou mais cultura do que todos os padres de sua época, foi vítima daquele clero, que tramou e conseguiu impedir que ele fosse ordenado, apesar dos méritos e conhecimentos eclesiásticos.
No painel histórico que traça da escravidão e da carga de preconceitos por ela gerada, Josué Montello traz à tona, por exemplo, o amor do poeta caxiense Gonçalves Dias, que era mulato, pela jovem Ana Amélia, por ele apaixonada, mas ferozmente rejeitado pela mãe dela, que levou o preconceito ao extremo e transformou o que seria uma bela história de amor numa guerra com partidários de ambos os lados. O preconceito venceu, e o poeta amargou profunda frustração para o resto da vida. Outro registro histórico de peso é o julgamento da escravista Ana Rosa Ribeiro, acusada, com provas substanciais, de haver matado a pancadas um menino escravo, com requintes de crueldade de viés sádico. De um lado, o promotor Celso Magalhães, conhecido humanista e simpático à luta abolicionista, e de outro o famoso advogado Paulo Duarte, que defendia senhores de escravos, mas depois se tornou um baluarte da luta pela República. Num julgamento de cartas marcadas, a acusada foi declara inocente, e na esteira dessa decisão, algumas tragédias aconteceram.
A obra monumental de Josué Montello pinta também, com cores fortes, personalidades poderosas como Ana Jansen, historicamente conhecida pela crueldade com que tratava seus muitos escravos e destaca tumultuada relação dela com o poder. Rica e dotada de apurado senso político e de viés oportunista, a matrona é mostrada na sua inteireza, tanto que o seu encontro com Damião, a pedido dela própria, é um dos momentos mais fortes do livro e da saga do ex-escravo, no qual a petulância escravista alcança o seu mais alto grau.
“Os Tambores de São Luís” avança na sua relação tênue da ficção com a realidade, registrando, por exemplo, a luta dos negros pela liberdade, com seus padrinhos alforriados organizando fugas, os desdobramentos das leis que reduziam a escravidão. Nesse contexto, o livro mostra a evolução, lenta mas densa, da consciência de que, num mundo em que já existiam democracias plenas, tornava-se uma anomalia política sem sentido manter um país continental como o Brasil ser governado por uma monarquia sem futuro e ainda alimentar um sistema escravista. Tanto que o regime caiu um ano depois da Lei Áurea, que foi decisiva para o advento da República. E o dado mais curioso mostrado no livro é que a grande maioria dos negros se posicionou em defesa da monarquia, vendo na Princesa Isabel a sua grande protetora. Muitos deles pegaram em armas contra a proclamação da República, vendo no novo sistema “coisa de branco ruim”, o que levou a embates sangrentos nas ruas de São Luís.
Sétimo livro de Josué Montello, por muitos apontado como sua obra-prima, “Os tambores de São Luís” é, de longe, o mais rico e contundente resgate do regime escravista no Brasil pela via romanesca, a começar pelo fato de que São Luís foi um empório onde o cativeiro e suas mazelas alcançaram extremos. E foi também onde a abolição produziu a sua contradição mais aguçada no primeiro momento de vigência da Lei Áurea: ex-senhores de escravos mergulhados no desespero de se verem, de repente, sem serviçais cativos no trabalho pesado e nas tarefas caseiras mais simples, e uma multidão de negros livres, também de repente, sem ter para onde ir nem o que comer e nem aonde dormir – muitos retornaram, humilhados, às casas dos seus ex-senhores pedindo abrigo e trabalho -, ou seja, não sabiam como sobreviver. O novo mundo trouxe os seus problemas e os seus desafios, todos discutidos e respondidos pelo apurado senso crítico do Barão, o cativo “que nunca apanhou” e que previu que o preconceito só desapareceria no Brasil quando a união de brancos, negros e índios forjasse uma nova raça, o brasileiro.
“Os Tambores de São Luís” é uma obra definitiva: nos dá uma aula magna sobre literatura e sobre história e expõe as profundas contradições do que chamamos de civilização.
Em Tempo: Não foi sem razão que, onze anos depois de lançado, já traduzido para vários idiomas e reverenciado por críticos de diferentes culturas, “Os Tambores de São Luís” entrou para uma relação de obras “representativas da humanidade”, elaborada pela Unesco. Passados 50 anos da sua chegada ao mundo, a obra, sempre atual, ganhou uma bela edição comemorativa, embalada por uma capa genial, criada pelo artista gráfico Luciano Tasso, providência oportuna da Casa de Cultura Josué Montello.
São Luís, 07 de Fevereiro de 2026.
Em 2025 lancei uma versão em quadrinhos desse celabrado romance, com adaptação do roteiro feita por mim e desenhos dos artistas maranhenses Rom Freire e Ronilson Freire.
O lançamento realizado na Cas de Cultura Josué Montello, inicou oficialmente as comemorações do cinquentenário do romance.