Vítima do novo coronavírus, Zé Gentil partiu fechando um ciclo e deixando um legado político em Caxias

 

Zé Gentil: cultivou jeito leve de fazer política

A morte do deputado estadual José Gentil (Republicanos), ontem, em Teresina, aos 80 anos, vitimado pela Covid-19, produziu dois impactos. O primeiro foi a perda para os caxienses de um dos seus líderes mais atuantes das últimas décadas; o outro, a partida de mais um dos 42 deputados que escreveram, em 1989, a atual Constituição do Maranhão, um legado histórico intransferível, que sobreviverá para sempre. Em relação a Caxias, a cidade perdeu um filho apaixonado, os caxienses ficaram sem um velho e experiente companheiro, e o prefeito Fábio Gentil viu partir o seu melhor e mais fiel amigo, maior incentivador e principal conselheiro. No plano político geral, a Assembleia Legislativa deixa de contar com um parlamentar discreto, conciliador, que preferiu sempre a conversa ao confronto, que não era muito afeito à tribuna, mas era um craque nas conversas de “pé do ouvido” e nas articulações nos bastidores para tomadas de decisões importantes. Apoiava o Governo do Estado, mas preservava independência.

Zé Gentil, como era conhecido, vivia o seu melhor momento na seara política. Não escondia seu estado de graça com o fato de estar de volta à Assembleia Legislativa, mesmo às vezes se sentindo pouco à vontade em meio a um plenário muito jovem. Essa sensação de deslocamento foi se desfazendo à medida que sua experiência foi se impondo na Casa, fazendo com que nos últimos tempos já viesse atuando como referência para os mais jovens e um interlocutor à altura para os mais tarimbados. Com essa postura, manteve, por exemplo, um canal de diálogo com sua arquirrival, a deputada Cleide Coutinho (PDT), com quem somou esforços em várias situações relacionada a Caxias.

Seu maior motivo de orgulho era ter o filho, Fábio Gentil, no comando da Prefeitura de Caxias. Ele não se continha quando o assunto era a gestão do herdeiro político na Princesa do Sertão. Tinha as obras importantes – as realizadas, as em andamento e as planejadas – da prefeitura na ponta da língua, enfatizava sempre o pagamento dos servidores em dia, via de regra disposto a fazer o que estivesse ao seu alcance para apoiar a gestão do filho. Não escondia sua gratidão pelo aval que recebera do prefeito ao seu projeto de retornar à Assembleia Legislativa aos 78 anos. Da mesma maneira como se dizia disposto a ir à luta pela reeleição do herdeiro e, “se Deus permitir”, reeleger-se deputado estadual em 2022. Inconsolável, o prefeito Fábio Gentil demonstrou que a recíproca era verdadeira: “Perdi a minha referência, o grande e verdadeiro apoio que tive em toda minha vida”.

O jeito leve e habilidoso de fazer política foi um traço marcante de Zé Gentil. Ontem, o vereador Catulé (Republicanos), atual presidente da Câmara Municipal caxiense e conhecedor profundo da crônica política da Princesa do Sertão, o definiu como um líder nato e um político talentoso, que se revelou quando presidiu aquela instituição no início dos anos 80 do século passado. O salto estadual foi incentivado pelo governador Luis Rocha, seu amigo. Foi deputado estadual nos períodos 1987/1991, 1995/1999 e 2019-2020, tendo participado da histórica mais Assembleia Estadual Constituinte, em 89. Ao lado de líderes importantes e raposas conhecidas, como Ivar Saldanha, Raimundo Leal, José Bento Neves, Carlos Guterres e Celso Coutinho, entre outros, e de jovens atuantes como Gastão Vieira e Marconi Farias, atuou na tarefa de restaurar a democracia plena no Maranhão. Esse orgulho foi exibido meses atrás, quando a Assembleia Legislativa homenageou os constituintes de 89.

Na nota de pesar que publicou ontem, o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Othelino Neto (PCdoB), externou sentimento de pesar pela partida do líder caxiense, destacando que, aos 80 anos, Zé Gentil “era respeitado por toda a classe política”. E acrescentou: “Assembleia Legislativa transmite irrestrita solidariedade aos familiares, amigos, admiradores, e à população de Caxias em geral, que perde um grande líder político e apaixonado por essa cidade tão querida. Deus o receba em paz!”  Nesse caso, a formalidade foi carregada do sentimento de perda, pois era evidente o bom relacionamento que Zé Gentil m antinha com o presidente e seus colegas deputados. A manifestação do presidente Othelino Neto com certeza traduziu o sentimento de consternação de todos os seus 41 colegas de Assembleia, aí incluídos os seus adversários no Leste do Maranhão.

Zé Gentil fechou um ciclo importante na vida política de Caxias. E partiu como partem os políticos autênticos, deixando um legado.

 

PONTO & CONTRAPONTO

 

Eduardo Nicolau assume MPE declarando guerra à corrupção e às desigualdades sociais

Eduardo Nicolau: compromissos desafiadores no discurso de posse

“Prometo lutar por um estado moderno e impessoal, em que suas estruturas trabalhem para atender ao ser humano e não a nomes e sobrenomes, e lutar para conferir cada vez mais dignidade à vida de cada maranhense”

“Quero promotores e procuradores com vigor para efetivar a participação popular no ciclo de formação de políticas públicas, que realmente interessem à sociedade. Aprender a colocar-se no lugar do outro, a acordar-se com os demais, a respeitar o seu semelhante e a ser solidário”.

“Todas as instituições aqui reunidas devem assumir o compromisso de fortalecer a imunidade e a humanidade de nosso povo”.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, muda-se o ser, muda-se a confiança. Todo mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades”.

“Nesse momento de passagem, o comandante e a confiança mudam de rosto, mas a essência da instituição permanece e é renovada”.

As declarações, feitas em tom enfático, foram a base do discurso de posse do procurador de Justiça Eduardo Jorge Hiluy Nicolau no comando do Ministério Público do Maranhão como novo procurador geral de Justiça. A posse ocorreu ontem de manhã, virtualmente, por recomendação das autoridades sanitárias devido à pandemia do novo coronavírus, com a participação virtual das principais autoridades do Estado, a começar pelo governador Flávio Dino, o presidente da Assembleia Legislativa, Othelino Neto, e o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Lourival Serejo.

O discurso do novo procurador geral de Justiça não surpreendeu. Ele é a confirmação do seu discurso de campanha, durante a qual apresentou e defendeu um programa de ação com as mesmas teses, reforçadas pela proposta de um Ministério Público interagente. Eduardo Nicolau defendeu, também enfaticamente, o combate à corrupção e a modernização do Estado, que na sua visão só avançará se o Ministério Público fizer a sua parte.

A julgar pelo teor do seu discurso de posse, o novo procurador geral de Justiça está disposto a colocar em prática o que prometeu como plano de ação.

 

Governadores nordestinos mantêm coerência política e reagem a ataque ao Supremo

Flávio Dino e seus colegas do Nordeste em um dos encontros do Consórcio regional

Os nove governadores do Nordeste – entre os quais o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB) é um dos mais ativos e politicamente articulados – têm mantido coesão na postura de Oposição do Governo do presidente Jair Bolsonaro (sem partido). Administrativamente, têm encarado a má vontade do Palácio do Planalto e da Esplanada dos Ministérios com ações conjuntas, como o Consórcio Nordeste, por meio do qual realizam compras governamentais em bloco, obtendo expressivas reduções de preços, a exemplo do que vem acontecendo no enfrentamento da pandemia do novo coronavírus. Politicamente, os líderes da região têm pautado suas ações pelo firme contraponto às ações de extrema direita do Governo Central, rebatendo todas as iniciativas que visam desestruturar a base institucional sobre a qual funcionam as instituições que garantem o estado democrático de direito no País. Ontem, diante do insano ataque de partidários do presidente Jair Bolsonaro com fogos de artifício à sede do Supremo Tribunal Federal, numa nítida e estúpida ação de intimidação contra a Corte Suprema, os governadores nordestinos se manifestaram em nota:

“O Brasil não se curvará diante da violência física e moral, protagonizada por grupos movidos pelo ódio e pela intolerância. Estamos todos em meio a uma luta incessante para superação de uma grave crise sanitária, mas não negligenciaremos outra batalha que também se impõe. Em defesa da democracia e, assim como no combate à pandemia, em defesa do povo brasileiro

Nós, governadores do Nordeste, manifestamos nossa mais absoluta solidariedade ao STF, violentamente agredido neste final de semana, mas que reafirma o seu inarredável propósito de guardião maior da nossa Constituição. O Brasil saberá avançar com passos firmes na proteção à liberdade, às pessoas, às instituições democráticas e à civilidade. E nós continuaremos na linha de frente da caminhada que aponta para o futuro, jamais para retrocessos”.

São Luís, 16 de Junho de 2020.

Um comentário sobre “Vítima do novo coronavírus, Zé Gentil partiu fechando um ciclo e deixando um legado político em Caxias

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *