Um rumor agitou os bastidores políticos maranhenses nas últimas 48 horas: o vice-governador Felipe Camarão (PT) teria sido sondado para renunciar ao cargo, seria apoiado na corrida à Câmara Federal, abrindo caminho para a eleição de um governador-tampão pela Assembleia Legislativa, por via indireta, portanto. Houve reações moderadas e estridentes, enquanto o vice-governador Felipe Camarão reafirmou sua posição de não abrir mão do cargo, podendo ser candidato a senador ou deputado – federal ou estadual -, já que não precisa renunciar para tal. O rumor correu como uma surpresa, já que, diante de tudo o que foi dito até agora sobre acertos e desacertos na corrida sucessória, uma proposta dessa natureza não faria o menor sentido.
O governador Carlos Brandão (sem partido) está usando toda a sua experiência política para consolidar um projeto sucessório que dê continuidade ao prestígio que ele e seu Governo acumularam ao longo dos últimos três anos e nove meses, quando venceu uma reeleição no 1º turno e vem comandando um Governo municipalista. Nesse projeto, claro, não cabe adversário, nem o chefe do Executivo está disposto a abrir mão do poder de fogo que dispõe, já que pode, em tese, fazer um sucessor da sua mais absoluta confiança. E como está mais que demonstrado, o vice-governador Felipe Camarão não se encaixa no perfil desenhado pelo governador Carlos Brandão.
Ao longo dos últimos meses, Carlos Brandão vem construindo as candidatura do sobrinho, o secretário de Assuntos Municipalistas Orleans Brandão (MDB), para muitos já um fato consumado e irreversível, e para alguns, um projeto que pode ser mudado até o dia 4 de abril, quando o governador e o vice-governador dirão, finalmente, como será o jogo. Se Carlos Brandão renunciar para ser candidato ao Senado, Felipe Camarão assumirá o Governo no ato, colocando a candidatura de Orleans Brandão em xeque. Esse é o ponto, outros arranjos não farão muito sentido.
(Vale lembrar que foi esse o projeto rascunhado pelo então poderoso secretário de Infraestrutura Luiz Fernando Silva em 2014. Candidato assumido ao Governo. Como não havia vice-governador – Washington Oliveira havia renunciado para ir para o TCE -, ele queria que a então governadora Roseana Sarney renunciasse, passe o cargo para o então presidente da Assembleia Legislativa, deputado Arnaldo Melo, para que ele promovesse a eleição de um governador-tampão, no caso o próprio Luiz Fernando, que tentaria ser candidato à reeleição. Não deu certo. Roseana Sarney não topou. E no caso atual, o cenário é mais complexo, porque existe um vice que não abre mão do cargo).
O projeto do governador a Carlos Brandão vai de vento em popa, mas enfrenta dois problemas. O primeiro é o vice-governador Felipe Camarão, que permanecendo no cargo, sendo ou não candidato a alguma coisa, tira do governador um mandato de senador praticamente garantido. O outro, maior ainda, é o prefeito de São Luís, Eduardo Braide (PSD), que pode fazer uma aliança com Felipe Camarão e fortalecer ainda mais o seu projeto de chegar aos Leões. Esse cenário abre portas para negociações, mas em política só se negocia quando os dois lados estão dispostos a sentarem à mesa, e desarmados. E todos os sinais indicam que no momento atual não existe clima para isso no tabuleiro estadual, mesmo levando em conta a máxima segundo a qual na política do Maranhão “boi voa”, ao que raposas felpudas acrescentaram: “até de asa quebrada”.
Uma prova dessa tensão é o fato de que a tentativa de conciliação feita pelo presidente Lula da Silva (PT), que teve como ponto forte a renúncia do governador para se candidatar a senador, não produziu qualquer resultado até aqui. O governador Carlos Brandão ouviu o presidente e prometeu apresentar uma “contraproposta”, que já teria sido encaminhada. Mas os movimentos de Felipe Camarão e seus aliados e os de Carlos Brandão e seu grupo indicam que um acordo que reaproxime esses grupos é, por enquanto, ainda uma quimera política.
PONTO & CONTRAPONTO
Rubens Pereira pede demissão e deve somar com Rubens Júnior na base de apoio a Camarão
O secretário estadual de Articulação Política, Rubens Pereira, o Rubão, um dos principais articuladores políticos do Governo e pai do deputado federal Rubens Júnior (PT), entregou o cargo ontem à noite ao governador Carlos Brandão novo pedido de exoneração. O gesto foi formalizado em mensagem encaminhada ao mandatário estadual, na noite de ontem.
Na mensagem, Rubens Pereira justifica o pedido de exoneração argumentando que o momento, para ele, “é de reflexão” a respeito do que “é melhor para o povo maranhense”, afirmando ainda que deixa o cargo com “sentimento de dever cumprido”, acrescentando que “a vida pública requere de nós coerência e compromisso”. E reitera o pedido de exoneração, feito quando estourou a “Crise dos Áudios”, em outubro passado, que abalou irremediavelmente a relação dele e do deputado Rubens Júnior com o governador Carlos Brandão.
A saída de Rubens Pereira do núcleo político do Governo confirma o afastamento do deputado Rubens Júnior da base governista e da órbita da candidatura do secretário Orleans Brandão (MDB), para integrar a linha de frente do projeto de candidatura do vice-governador Felipe Camarão (PT).
Lula veta projeto que muda dosimetria para condenados por tentativa de golpe
O presidente Lula da Silva (PT) vetou ontem, integralmente, o Projeto de Lei da Dosimetria, que mudaria as regras e reduziria as penas dos condenador pelos atos de 8 de Janeiro de 2023 e pelos responsáveis pela trama golpista, inclusive o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), que cumpre pena de 27 anos de cadeia, que poderia ser reduzida para 2 anos e sete meses com as novas regras.
Mesmo aplicando o veto durante o ato que lembrou a tentativa de golpe em cerimônia no Palácio do Planalto, o presidente Lula da Silva não fez qualquer comentário sobre o projeto em si, limitando-se a fazer o que já havia dito que faria. Foi uma atitude de um chefe de Estado consciente, preferindo não fazer alarde do seu gesto, numa clara atitude de respeito ao Congresso Nacional.
Na base da sua justificativa, o presidente da República explica a decisão argumentando que a matéria é inconstitucional, à medida que praticamente chancela o golpismo no Brasil e desrespeita as decisões do Supremo Tribunal Federal, que realizou um julgamento justo, aberto, transparente, com total direito de defesa e baseado em provas robustas. Mudar a dosimetria das penas seria uma violência contra o Poder Judiciário e um estimulo ao golpismo, que ainda tem muitos simpatizantes no País.
No meio político, correu ontem a certeza de que a Câmara Federal derrubará o veto presidencial, havendo alguma dúvida se o mesmo acontecerá no Senado. Outro caminho será o da judicialização, a questão sendo levada à Suprema Corte.
O ato do presidente Lula da Silva alertou que o 8 de Janeiro e a tentativa de golpe não podem ser esquecidos, e que apesar dos avanços de consolidação, a democracia ainda corre riscos no Brasil.
São Luís, 09 de Janeiro de 2026.


