Em meio ao cenário em que o governador Carlos Brandão (sem partido) tem confirmado que vai entrar de vez nas articulações políticas para definir as posições do seu grupo para as eleições de outubro, com o secretário de Assuntos Municipalistas Orleans Brandão (MDB) em plena atividade de pré-campanha, o vice-governador Felipe Camarão (PT) se movimenta avisando que, ao contrário do que muitos pensam, ele nem de longe avalia a possibilidade de arquivar o seu projeto de disputar o Palácio dos Leões, “em qualquer circunstância”. O recado que a base governista e as correntes de esquerda ligadas ao vice-governador estão passando é que não há ainda nem sinal nem ambiente para uma cada vez mais improvável reconciliação. Os dois grupos estão trabalhando para ocupar espaço maior possível no cenário que será formado com a provável entrada do prefeito Eduardo Braide no jogo sucessório.
O recado mais contundente de que está politicamente vivo e dentro do jogo sucessório foi mandado no domingo pelo vice-governador Felipe Camarão. Ele reuniu, no Quilombo Cariongo, em Santa Rita, numa espécie de edição extra do programa “Diálogos pelo Maranhão”, lideranças do PT, do PSB, do PCdoB, do PSOL e do Rede para discutir o quadro político maranhense e, dentro dele, reafirmar, de maneira contundente, o seu projeto de candidatura. “Este é um projeto político em que eu pretendo que nos caminhemos todos juntos, com a humildade de saber que estamos sob a liderança do presidente Lula, e que a gente vai caminhar para o povo maranhense”, explicou o vice-governador.
Na reunião, Felipe Camarão foi enfático ao reafirmar que sua candidatura ao Governo do Estado está decidida, seja como líder de uma chapa de união, seja como no comando de uma frente de esquerda, ou, finalmente, numa corrida solitária. Ele se colocou à disposição para conversar, mas sem abrir mão de dois pontos: não abre mão da condição de vice-governador, descartando enfaticamente a possibilidade de vir a renunciar, nem admite retirar sua pré-candidatura ao Palácio dos Leões, descartando disputar vaga no Senado ou na Câmara Federal, enfim, será candidato a governador, e ponto final.
O vice-governador exibe inflexibilidade exatamente nos dois pontos em relação aos quais o governador Carlos Brandão quer discutir, o que em política desenha claramente um impasse. Carlos Brandão está determinado a só deixar o cargo para disputar o Senado se Felipe Camarão renunciar à vice-governança, caso contrário, permanecerá no Governo até o final do mandato, mergulhando na campanha em favor do seu candidato a governador, no caso o secretário Orleans Brandão. E o cenário se torna rigorosamente indefinido porque tanto o governador Carlos Brandão quanto o vice Felipe Camarão têm palavra final sobre os rumos dos grupos que lideram.
Com a reunião com as lideranças de partidos de esquerda no Quilombo Cariongo, o vice-governador deixou claro que, pelo menos por enquanto, não existe brecha para diálogo, principalmente se na pauta constar sua eventual desistência de disputar o Governo e sua renúncia à vice-governança. Por sua vez, o governador Carlos Brandão informa que consultará o seu grupo, “para tomar decisões no colegiado”, embora não haja qualquer dúvida de que o mandatário tem a palavra final sobre o futuro do grupo. Isso porque qualquer a decisão – ficar ou deixar o Governo – a ser tomada o afetará diretamente. E a leitura feita unanimemente no meio político é a de que a candidatura do secretário Orleans Brandão está atrelada a essas duas situações.
É verdade que o ano eleitoral está apenas nos seus momentos iniciais, mas em política, principalmente quando o objetivo são eleições a serem realizadas em 10 meses, não há espaço para indefinições. O vice-governador Felipe Camarão confirmou suas posições em Santa Rita, enquanto o governador Carlos Brandão avisa que vai ouvir seu grupo. O que sairá desses dois quadrados o eleitorado maranhense saberá em breve.
PONTO & CONTRAPONTO
Brandão continua sem partido, mas pode se filiar para se candidatar ou não às eleições de outubro
Entre as decisões que deverá de tomar nos próximos tempos, o governador Carlos Brandão terá de resolver sua vida partidária. Ele não está obrigado a se filiar a um partido como chefe do Poder Executivo. Mas se vier a ser candidato a senador ou a outro cargo eletivo em outubro, terá de se filiar a um partido até 4 de abril.
Até agora, o governador mantém a posição de permanecer no cargo até o final do mandato. Se assim continuar, ele poderia cumprir o resto do seu mandato na condição de “sem partido”. Mas se resolver entrar na corrida eleitoral com o candidato, terá de se filiar.
Carlos Brandão se elegeu em 2022 pelo PSB, partido que presidiu por mais de dois anos. No ano passado, porém, em meio ao rompimento na base governista, o comando nacional do PSB tirou-0lhe o coando ao partido, e diante do ato partidário de força, ele deixou o partido, mantendo-se até agora sem filiação partidária.
Se vier a se filiar a um partido, a tendência é assinar ficha no MDB, que é controlado pelo empresário Marcus Brandão e tendo atualmente Orleans brandão como presidente. Ou poderá retornar ao PSDB, partido pelo qual se elegeu duas vezes deputado federal e a vice-governador em 2014.
A decisão que vier a ser tomada pelo governador Carlos Brandão terá forte repercussão. Se ele não se filiar a uma legenda até 4 de abril, o seu grupo saberá que ele permanecerá no cargo até o final e a história das eleições será uma. Se ele assinar ficha de filiação em alguma sigla, abrirá caminho para se candidatar, dependendo da decisão mais importante: se renunciará ou não em 4 de abril.
Em Tempo: há cerca de dois meses, a Coluna indagou-lhe sobre situação partidária, e ele respondeu: “Não temos pressa”.
Com autoridade histórica, Sarney reafirma rejeição a Maduro, mas critica ação dos EUA na Venezuela
O ex-presidente José Sarney (MDB) entrou no grande debate sobre o ataque armado dos Estados Unidos à Venezuela, onde sequestrou o ditador Nicolás Maduro e sua mulher Cilia Flores, numa violenta e injustificada ação militar de desrespeito à soberania do país e às leis internacionais. O ex-presidente do Brasil reafirmou suas duras restrições ao regime ditatorial de Nicolás Maduro, mas reagiu com indignação à violação da soberania venezuelana, numa crítica velada ao uso da força militar pelo presidente norte-americano Donald Trump no continente, onde não existe confrontos militares entre nações.
José Sarney é, sem dúvida, um dos políticos brasileiros com maior autoridade para se manifestar sobre esse momento. Isso porque durante o seu Governo, além de reimplantar a democracia no Brasil, teve papel importante e decisivo na interrupção da onda ditatorial que assolou a América Latina durante no final sáculo passado.
O então presidente brasileiro trabalhou para fortalecer a democracia na América Latina, principalmente no Cone Sul, apoiando a volta da democracia na Argentina, formando uma parceria com o presidente Raul Alfonsín, e no Uruguai, com Juan Maria Sanguinetti. Foi o principal criador do Mercosul, que abriu as fronteiras econômicas nessa região do continente. Além disso, foi um dos articuladores do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares, desativando os investimentos na produção de artefatos nucleares com fins militares.
No que diz respeito à Venezuela, José Sarney trabalhou de perto com o último presidente democrático daquele país, Carlos Andrés Perez, de quem era interlocutor habitual. E reagiu à implantação da ditadura de esquerda pelo coronel Hugo Chávez, que degringolou para um violento regime de exceção herdado e mantido por Nicolás Maduro.
“Defender a paz não é ser complacente com o autoritarismo, mas agir com responsabilidade para proteger a democracia, a estabilidade regional e, sobretudo, o povo venezuelano”, concluiu José Sarney na nota que divulgou sobre a ação armada dos EUA.
São Luís, 06 de Janeiro de 2026.


