Papete e sua bandeira maior

 

bandeira de aço
A célebre capa de “Bandeira de Aço”, o maior sucesso da música maranhense
papete e tambores
Papete e seus tambores, base da percussão

Morreu José de Ribamar Viana, o Papete, aos 68 anos, devido a um câncer de próstata. Partiu assim um dos músicos maranhenses mais importantes das últimas décadas, que se notabilizou como percussionista, arranjador, intérprete e propagador incansável da música popular, especialmente a maranhense. Mas o Papete que todos conhecem se agigantou em 1978, quando produziu, arranjou, interpretou – na voz e nos arranjos de percussão – e ofereceu ao mundo o incomparável “Bandeira de Aço”, tido quase por unanimidade como o mais importante disco da Música Popular Maranhense em todos os tempos. O disco é resultado da colaboração dele com o produtor Marcus Pereira, responsável pelo mais amplo, completo e definitivo registro das raízes regionais da Música Popular Brasileira. “Bandeira de Aço”, que reúne alguns dos maiores clássicos da MPM, quase todos focados na sua mais importante fonte de inspiração, o bumba-meu-boi. Pelas mãos musicais de Papete, o disco cravou na cultura brasileira o gênio de César Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Ronaldo Mota.

Os estudiosos e aficionados pela MPM certamente dissecarão o artista Papete como um todo, a começar pelo percussionista que fez história nos grandes palcos do Brasil e do mundo, tendo sido incluído, em alguns momentos, na elite dessa categoria de músicos em todo o planeta. Esses pesquisadores têm ao seu alcance material farto para consolidar a história de Papete como arranjador de qualidade superior, intérprete de indiscutível originalidade, e também como ativo produtor e agitador cultural na sua seara musical. E não há dúvida de que tudo o que produziu de seu tem importância capital no registro documental do conjunto da sua obra. Eles estão em 18 discos, entre eles “Berimbau e percussão” (1975), Água de Coco (1980) e “Planador” (1981), “Papete” (1987), “Bela Mocidade” (1991), “Tambor” (1999), “Era uma vez” (2004), “Estrada da Vitória” (2007) e “Senhor José” (2013). São também evidentes em registros especiais como “Sinal Aberto”, disco que documenta inesquecível show em que Paulinho da Viola e Toquinho resgatam algumas preciosidades do samba carioca. Os exemplos são inúmeros. E mais além, o incentivador se mostra no livro “Os Senhores cantadores, amos e poetas do bumba-meu-boi do Maranhão”, publicado há três anos.

Mas é “Bandeira de Aço”, que não abriga composição de sua autoria, a sua obra icônica, pois revela, antes de tudo, a sua sensibilidade e a decisiva colaboração do compositor Chico Saldanha na escolha do que de melhor se consolidava na música maranhense na segunda metade da década de 1970, um período de transição na MPB, na MPM e nas artes em geral por conta do fim dos anos de chumbo e do começo da mobilização da sociedade brasileira contra ditadura. O disco chegou quando a juventude já dava gritos de guerra contra o arbítrio, numa movimentação estudantil que levou à histórica e decisiva greve da meia passagem, em 1979, que transformou São Luís numa praça de guerra durante uma semana. Era o tempo áureo do Laborarte, um centro que buscava associar literatura, dança e música, e do teatro experimental liderado por Lauro Leite. Essa geração nascia ainda sob os ecos dos grandes festivais de música maranhense – dos quais saíram pérolas como “Louvação a São Luís”, de Bandeira Tribuzi, que se eternizaria como Hino de São Luís. César Teixeira, Josias Sobrinho e Sérgio Habibe já eram compositores respeitados, mas suas obras não alcançavam grande público. Gravar um Long play no final dos anos 70 ainda era uma aventura cara e complicada, e distribuição e divulgação, então, nem se fala – os programas de rádio eram dominados pelas grandes gravadoras. O grande momento era o show, e a sobrevivência se garantia pelos encontros, e a chegada da cultura do barzinho. Teixeira, Sobrinho e Habibe viviam nesse circuito, quase sempre amparados pela Fundação Cultural do Maranhão, onde tudo acontecia em matéria de cultura no estado, então comandada pelo escritor e pesquisador Domingos Vieira Filho, que tinha como um dos principais articuladores o poeta e ativista cultural Valdelino Cécio.

Embalado pelo selo alternativo Discos Marcus Pereira, que a duras penas enfrentava o poder avassalador das grandes gravadoras, “Bandeira de Aço” desembarcou no Maranhão como um furacão, foi recebido em grande estilo, aos poucos contagiou o grande público e se tornou um sucesso estrondoso, que nenhum outro disco jamais alcançou até aqui. Era um produto especial, nada parecido com tudo o que havia sido feito antes. Caiu no gosto do povo, atravessou a fronteira temporal do São João e até hoje, 37 anos depois, continua iniciando gerações na maravilha que é a face musical da cultura popular do Maranhão.

Como produtor, arranjador e intérprete, Papete conseguiu embalar cada uma das nove músicas com arranjo certo, inspirado na simplicidade, de modo a tornar “Bandeira de Aço”, “Flor do Mal” e “Boi da Lua”, de César Teixeira; “Dente de ouro”, “Catirina”, “De Cajari pra capital” e “Engenho de flores”, de Josias Sobrinho; “Eulália”, de Sérgio Habibe, e “Boi de Catirina”, de Ronaldo Mota, um disco para ser ouvido, cantado e animar  festas, curtido e eternizado. Tudo isso foi conseguido porque Papete o tornou um disco para o povo cantar, coisa rara, mesmo nos artistas mais talentosos. Como intérprete, ele deu a cada música o tom adequado à sua voz, cantou de maneira despretensiosa, não tentou ir além do seu limite, não fez trejeitos vocais nem mascarou a simplicidade da sua interpretação.

Ouvir atentamente “Bandeira de Aço” é curtir o prazer de perceber as sutilezas do percussionista genial, que explora cada trecho de cada canção com o toque e o som que a embala, também com muita segurança e sem o risco do exagero. Os arranjos e a interpretação de todas as nove faixas de “Bandeira de Aço” são simples, quase cartesianos, mas de muito bom gosto, revelando todas as facetas do arranjador e, em especial, do percussionista. E foi exatamente por essa simplicidade que ele tornou “Bandeira de Aço” um disco polêmico, como admitiu o próprio Papete. Ao ouvirem-no, os puristas da cultura popular maranhense reagiram com mau humor, argumentando que os arranjos de Papete simplificaram demais a música de César Teixeira, Josias Sobrinho, Sérgio Habibe e Mota, tendo alguns mais pretensiosos classificado de “medíocres” os arranjos, principalmente para as músicas “Bandeira de Aço” e “Eulália”. Outra corrente dos “guardiões” da pureza cultural, essa mais sensata, assimilou facilmente o trabalho de Papete, vendo nele a chave que abriria as portas do mundo para a música do Maranhão. A partir daí, a discussão avançou para a questão dos direitos autorais e, expressando o jogo de uma rede de intrigas, o jornal “Diário do Povo” estampou em manchete que a gravadora Marcus Pereira estava enganando os compositores. Os ânimos se acirraram, Papete foi acusado de estar ganhando muito dinheiro com a obra alheia. O debate durou muito tempo, por gente honesta e por pessimistas e invejosos. Papete foi duramente criticado, mas também defendido. Só anos depois houve a pacificação.

Enquanto críticos, provocadores e defensores gastavam seu latim em discussões, que eram travadas em mesa de bar, reuniões fechadas e nas rodas de artistas, os maranhenses festejaram e transformaram “Bandeira de Aço” no mais retumbante sucesso da MPM de todos os tempos. E Papete, que nunca deu bolas para os críticos, se consagrou como produtor, arranjador e intérprete, enfim, como um gigante na propagação da música maranhense empunhando o disco como a sua maior bandeira. E a unanimidade em torno do disco se confirmou em 2013, no grande show que, com a presença dos autores e grande número de compositores, foram comemorados os 35 anos do “Bandeira de Aço”.

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Em tempo: “Bandeira de Aço” foi relançado em 2001 com o apoio do instituto Geia. Além das suas nove músicas da versão original, o disco ganhou mais nove faixas, a maior parte de “Bela mocidade”, de 1991. São elas: “Bela mocidade”, de Donato Alves; “Beleza de Gado”, de Aurílio de Guimarães; “Orvalho da campina”, de Papete; “Rosa Amarela”, de Osvaldo Preto; “Vagalume da Madrugada”, de Papete/Zé Américo/Iracema Bastos; “Pindaré”, de Papete/Chico Saldanha; “Te amo, sim!!!”, de Manequinho; “Mimoso”, de Ronald Pinheiro, e um Pot Pourri de toadas de César Nascimento, Papete/Chico Saldanha, Aparecida Lobato, Donato Alves e Inaldo Bartolomeu.

Discografia de Papete: Berimbau e percussão (1975), Bandeira de Aço (1978), Água de Coco (1979), Planador (1982), Papete (1987), Rompendo fogo (1989), Bela Mocidade (1991), Voz dos arvoredos (1992), Laço de Fita (1994), Música Popular Maranhense (1995), Papete (1996), O melhor de Papete (1997), Tambô (1999), Era uma vez… (2004), Jambo (2006), Aprendiz de cantador (2008), Estrada da Vitória (2010) e Senhor José (2013).

 

São Luís, 27 de Maio de 2016.

2 comentários sobre “Papete e sua bandeira maior

  1. Um dos melhores percussionistas do Brasil, mas nem houve divulgação do seu trabalho e da sua morte por parte das emissoras de TV e rádio. Conheci seu trabalho “Bandeira de Aço”, quando do lançamento em 1978 em São Luiz do Maranhão, trouxe o seu LP e mostrei para amigos. Você foi demais Papete.

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