Governo, Igreja e parceria espiritual e política

 

 

Foto 3 Governador com bispos
Governador Flávio Dino em reunião com bispos em palácio

Na tarde de quinta-feira (19), o governador Flávio Dino (PCdoB) recebeu a cúpula da Igreja Católica do Maranhão no Palácio dos Leões, tendo à frente o arcebispo de São Luís e chefe da instituição religiosa no estado, Dom José Belisário. O encontro foi definido pelo governo como o início de um processo de diálogo, por meio do qual governo e Igreja, na voz dos seus representantes maiores, trocarão impressões sobre os problemas sociais mais agudos que atingem a população estadual, como segurança, educação e produção agrícola.

Os bispos levaram ao chefe do governo sugestões e reivindicações das comunidades nas quais atuam, reunindo tais colaborações numa pauta que roteirizou a conversa. Nela, um dos pontos mais destacados foram os conflitos fundiários, que continuam fazendo parte do elenco de problemas que o Maranhão enfrenta e que, apesar dos avanços, estão longe de serem sanados de vez. Os clérigos enfatizaram a necessidade de incentivos para a geração de trabalho e renda, e apontaram a interiorização da Universidade Estadual do Maranhão como um dos motores de qualquer processo de mudança.

O encontro faz parte de uma estratégia muito clara do governador Flávio Dino de ampliar cada vez mais o leque de relações do seu governo com os segmentos organizados da sociedade, principalmente os que podem funcionar como contrapeso em situações em que o Poder Executivo estiver na contramão do interesse público. Depois de se converter ao catolicismo, rejeitando o ateísmo marxista-leninista, e formar a aliança política e partidária que o levou ao poder com maioria esmagadora dos votos, o governador busca consolidar o seu projeto firmando compromissos com os mais diferentes segmentos organizados da sociedade, sem o que dificilmente terá o suporte necessário para concretizar a extensa lista de compromissos assumidos – alguns arrojados e de difícil cumprimento.

O primeiro passo foi na direção da classe empresarial, até para sepultar qualquer suspeita de que seu governo pudesse impor aos maranhenses um esquerdismo inconsequente. Em encontros francos, nos quais desenhou seu projeto, o governador convocou o empresariado para ser parceiro do seu governo, dando-lhe voz na formação de um Conselho consultivo inédito na história do Maranhão.  Os gestos do governador em relação ao empresariado criaram um clima de expectativa otimista nesse segmento, formado a partir da constatação de que ele convive bem com o capitalismo.

Por mais contraditória e controversa que seja, navegando ora em águas progressistas e ora em mares extremamente conservadores, a Igreja Católica é uma instituição forte, com credibilidade política e uma enorme capilaridade. Seus sacerdotes formam uma rede gigantesca de vozes, o que lhe dá um poder imensurável. As paróquias são desaguadouros de problemas sociais os mais diversos, o que torna a instituição uma interlocutora politicamente credenciada para representar os mais fracos na relação com o poder político.  Ao estreitar sua relação com a Igreja Católica, o governador atrai um suporte e tanto para o seu projeto de governo. E também de poder.

A importância da Igreja para esse projeto foi definida pelo próprio governador ao comentar o encontro: “É um desejo nosso construir essa aliança política com os líderes religiosos, levando em consideração as demandas e as necessidades que eles trazem dos municípios. Nós temos a disposição de ajudar porque acreditamos nesse trabalho e temos uma preocupação comum com a população mais carente do Estado. O Governo está motivado e querendo acertar”.

Ao definir a relação do seu governo com a Igreja como uma “aliança”, o governador não deixa dúvida de que o seu projeto vai muito além de contar com a instituição apenas como um canal de interlocução com os segmentos sociais. E também não há dúvida de que, pelo menos agora, a Igreja Católica no Maranhão está aberta a essa parceria, pois emite sinais evidentes de que aposta no projeto de governo e de poder que está em curso no Maranhão. Prova disso está nas palavras do chefe maior da instituição no Maranhão, Dom José Belisário: “Trabalhamos para reverter os índices negativos do IDHM e, ouvindo a população, estamos consolidando parcerias e construindo políticas públicas para melhoria da qualidade de vida nos municípios”. Sinal mais nítido, impossível.

É oportuno registrar que nas últimas décadas as relações da Igreja Católica com governadores foi de altos e baixos. Com o governador João Castelo, cuja gestão se deu quando a ditadura ainda era integral, foi formal e às vezes muito tensa, principalmente quando ocorreu a estudantil em São Luís em 1979. Em seguida, o governador Luiz Rocha quase de confronto aberto, principalmente por causa de questões fundiárias que explodiram em diversas regiões do Maranhão e que Rocha acusava a Igreja de estar por trás. O governador Epitácio Cafeteira manteve relações amistosas com o clero na maior parte do tempo, ganhando a simpatia da Igreja quando proibiu, por diversas vezes, a Polícia Militar de cumprir ordem de despejo em áreas de conflito. O governador João Alberto se relacionou produtivamente com a Igreja, mantendo diálogo com a sua cúpula, enquanto o governador Edison lobão cultivou relações formais. Nos seus dois primeiros governos, a governadora Roseana Sarney teve uma relação de altos e baixos com a Igreja, porque enquanto a ala mais conservadora dava apoio ao seu governo, a ala progressista mantinha uma atitude de confronto. O governador José Reinaldo não teve maiores problemas com a instituição, enquanto o governador Jackson Lago foi expressivamente apoiado pela instituição, principalmente pela ala progressista. Nos seus dois últimos períodos de governo, as relações de Roseana Sarney com a Igreja ficou estremecida, principalmente depois que os bispos divulgaram um documento com duras críticas sobre a realidade social do estado.

 

PONTOS & CONTRAPONTOS

 

Portal da Transparência

O governador Flávio Dino sancionou ontem a Lei de Acesso à Informação, também chamada de Lei da Transparência, e inaugurou o novo Portal da Transparência do Governo do Estado do Maranhão – que funcionará no endereço www.transparencia.ma.gov.br. O portal, que já existia, mas foi totalmente reformulado, foi definido pelo secretário de Transparência e Controle, Rodrigo Lago, como “um importante instrumento de controle e participação social”, garantindo que a página dará acesso total aos cidadãos que queiram tomar conhecimento da execução financeira estadual, acabando com os filtros que existiam no portal anterior. “A primeira medida foi retirar todos os filtros indevidos que existiam no portal, essa medida foi tomada ainda em janeiro. O Governo do Estado já vem publicando todos os gastos públicos que tem efetivado e hoje pontuo, lançando outro portal, mais acessível e de mais fácil interpretação”, disse o secretario, destacando que, anteriormente, apenas 40% dos gastos eram disponibilizados ao público, e que com o fim dos filtros, o governo passa a declarar 100% de seus gastos. Que assim seja.

 

Alguém entendeu? I

O governo noticiou que o Governo do Estado, por meio da Secretaria de Indústria e Comércio do Maranhão (Seinc), firmou parceria institucional com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) para fomentar o desenvolvimento do Maranhão. O texto informa que o acordo foi fechado quinta-feira (19), em reunião do secretário de Indústria e Comércio, Simplício Araújo, com o ministro da pasta, Armando Monteiro, em Brasília. Até aí, apesar da afirmação “fomentar o desenvolvimento do Maranhão” poder dizer muita coisa, mas também nada dizer, o leitor do release entendeu que o secretário e o ministro acertaram algo de bom para o Maranhão. Em seguida, porém, a matéria informa que “entre os tópicos propostos pelo governo estão a elaboração da política de desenvolvimento produtivo do Maranhão, o fortalecimento da parceria institucional que possibilite a dinamização do Plano Nacional da Cultura Exportadora (PNCE) no estado, o adensamento das cadeias produtivas estratégicas para o processo de desenvolvimento produtivo do estado e a elaboração de programa que possibilite a agregação de valor aos produtos maranhenses”. E no parágrafo seguinte informa que o secretário Simplício Araújo trabalha com a “prioridade estratégica” de fazer com que “o Maranhão cresça de forma sustentável, focando em suas potencialidades, na força do seu mercado local e na convergência das demandas regionais, buscando o adensamento de cadeias produtivas, processo este ancorado na qualidade, produtividade e inovação tecnológica”. Deu para entender?

 

Alguém entendeu? II

A informação de que o secretário ainda vai elaborar uma política para desenvolver o estado não é de todo estranha, apesar de surpreender quem esperava que tal política já estivesse definida e elaborada. Já a proposta de fortalecer a parceria institucional Seinc/MIC para possibilitar a dinamização do Plano Nacional da Cultura Exportadora (PNCE) é algo tão óbvio que não deveria sequer figurar como proposta. Em seguida, a tal parceria prevê “o adensamento das cadeias produtivas estratégicas para o processo de desenvolvimento produtivo do estado”, o que será facilitado com a elaboração de um programa que agregue “valor aos produtos maranhenses”. Indaga-se: de que cadeias produtivas o secretário está falando? Mais ainda: que produtos maranhenses podem ser beneficiados com a agregação de valor? Será mesmo possível que a parceria Seinc/MIC levará o Maranhão ao horizonte enxergado pelo titular da Seinc? E para justificar tudo o que foi dito, o secretário Simplício Araújo arremata: “Precisamos iniciar um ciclo virtuoso de desenvolvimento que possibilite ao Estado se fortalecer economicamente com rebatimento direto na melhoria da qualidade de vida da sua gente”. Tudo bem, a frase é velha, o conceito nela contido é mais antigo ainda, mas nada custa aceitá-la como um postulado da modernidade que o novo governo do Maranhão parece empenhado em alcançar. Ou não é nada disso?

 

Não há crise

O deputado Roberto Costa não vê crise na bancada do PMDB na Assembleia Legislativa. Avalia que a decisão de retirar sua assinatura do projeto que instituiria o sistema de emenda impositiva, no qual o governo fica obrigado a pagar as emendas propostas pelos parlamentares, não é motivo para estremecimento dentro da bancada. Roberto Costa argumenta que foi uma decisão pessoal, porque o assunto não foi discutido no grupo. Ele ficou surpreso com a reação da deputada Andrea Murad, que na sessão de quinta-feira criticou sua decisão de retirar sua assinatura do projeto e anunciou que cobrará explicação ao colega. Roberto Costa disse que vai conversar com Andrea Murad, prevendo que tudo será resolvido sem problemas.

 

Coutinho a caminho

O presidente da Assembleia Legislativa, deputado Humberto Coutinho (PDT) deve reassumir o cargo terça-feira (24). Ele está a caminho do Maranhão depois de ter se submetido a uma bem sucedida cirurgia restauradora em São Paulo. Em conversa com a coluna, ontem, Humberto Coutinho informou também que sua esposa, a ex-deputada Cleide Coutinho, que sofreu uma indisposição cardíaca e recebeu um stent, também está se recuperando tranquilamente.

 

São Luís, 20 de Março de 2015.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *