Especial: Sarney encerra “exílio” vitorioso no Amapá e volta ao Maranhão com direito a votar e ser votado

 

José Sarney: de volta ao Maranhão com direito a votar e ser votado
José Sarney: ex-presidente está de volta ao Maranhão com direito a votar e ser votado

Ao transferir o seu domicílio eleitoral de Macapá para São Luís, na semana passada, o ex-presidente José Sarney (MDB) encerrou seu vitorioso “exílio” no Amapá e juntou a peça que faltava para voltar integralmente à vida política do Maranhão, de novo com direito a votar e ser votado. Esse direito sempre foi a base da ação política de José Sarney, que construiu toda sua vencedora carreira com todos os mandatos – exceto o de vice-presidente da República, que obteve no Colégio Eleitoral – conquistados nas urnas, enfrentando sempre situações difíceis e adversários duros, o que lhe dá o direito de ser definido como um democrata, de viés à direita e liberal,  mas um democrata, incontestavelmente. Seu retorno eleitoral ao Maranhão, depois de 28 anos e três mandatos senatoriais pelo Amapá, encerra mais um ciclo na vida desse gigante da política brasileira – visto por uns como um modelo e por outros com o um oligarca -, iniciado exatamente quando terminou, em março de 1990, o seu mandato presidencial de cinco anos e que, após algumas semanas de “descanso” na Ilha de Curupu, decidiu repensar a aposentadoria política e candidatar-se a senador pelo Maranhão. Perseguido pelo sucessor Fernando Collor de Mello (PRN), que o queria distante da cena política, para isso apoiando abertamente a candidatura do senador João Castelo (PRN) ao Governo do Estado, Sarney foi surpreendido pela decisão do PMDB, que numa conjunção de interesses, ranços políticos e pessoais, negou-lhe a legenda e o obrigou a migrar politicamente e eleitoralmente para o Amapá, estado por ele criado quando presidente. Se de um lado a migração teve um gosto amargo de exílio, de outro deu ao ex-presidente o sabor de conquistar três mandatos consecutivos no Senado Federal.

Os fatos e os seus desdobramentos produzidos pela estratégia de rifar José Sarney da vida pública, tiveram como articuladores três grandes nomes da política do Maranhão, todos raposas experimentadas: o então governador Epitácio Cafeteira (PTB), o então deputado federal Cid Carvalho, à época  presidente do PMDB no estado, e o ex-deputado federal Renato Archer, que foi ministro de Ciência e Tecnologia do Governo Sarney por pertencer à cúpula do PMDB e ao núcleo íntimo do então poderoso chefe supremo do partido, deputado federal Ulisses Guimarães (SP). Cafeteira montou forte esquema político e eleitoral para concorrer à única vaga de senador naquelas eleições. Experiente, sabia que ao deixar a presidência, Sarney tinha o Senado como caminho natural. E como avaliava que se disputasse a vaga com o ex-presidente correria sério risco de sofrer sua primeira derrota nas urnas, articulou-se com Cid Carvalho e Renato Archer e obteve o apoio de Ulisses Guimarães, que pretendiam a todo custo ver Sarney fora da política.

Sempre com faro bem apurado, muito bem informado, e com “livre docência” em artimanhas políticas maranhenses – que aprendeu nos duros embates com inimigos implacáveis como Vitorino Freire, e aperfeiçoou ao longo da carreira -, o ainda presidente José Sarney sabia que seus adversários no Maranhão tentariam liquidá-lo politicamente. O projeto incluía o apoio de Cafeteira – que flertara com Collor durante a campanha presidencial de 1989 -, Carvalho e Archer à candidatura de João Castelo, que inicialmente disputaria o Governo com o deputado federal Sarney Filho (PFL) e inviabilizar a candidatura de Sarney a senador. O presidente começou a se movimentar, tomando providências para “quebrar” qualquer “imprevisto” destinado atingi-lo. Estava decidido a se aposentar e dedicar-se à literatura, sua segunda paixão, mas deixaria um “Plano B”, no caso o Amapá, pronto para ser ativado em caso de reviravolta. Esse preparativo veio à tona quando, convencido por amigos – estes alarmados com a instabilidade que se desenhou já nas primeiras semanas do Governo Collor – a voltar às lutas políticas, tendo recebido convites para ser candidato por vários estados, entre eles Goiás e Rio de Janeiro, preferindo o pequeno e distante Amapá, então governado pelo seu amigo e fiel escudeiro, o maranhense Jorge Nova da Costa, que viria a ser primeiro suplente de senador.

Movidos pelo projeto de tirar Sarney do caminho e apostando que a literatura o manteria politicamente inerte no casarão do Calhau, Epitácio Cafeteira, Cid Carvalho e Renato Archer foram apanhados de surpresa quando, sem legenda no Maranhão, o ex-presidente anunciou que se mudaria política e eleitoralmente para o Amapá e substituiu Sarney Filho pelo senador Edison Lobão (PFL) como candidato a governador. E para completar a virada, depois de uma animada peleja judicial e uma frenética guerra política, Sarney conseguiu consolidar João Alberto, então no PFL, no Governo do Estado, tirando todo o poder de fogo dos adversários, que jogaram alto na certeza de que o sucessor de Cafeteira no Palácio dos Leões seria o presidente da Assembleia Legislativa, deputado Ivar Saldanha (PDS), então presidente da Assembleia Legislativa, apoiador da candidatura de João Castelo.

Iniciada em abril, pouco mais de um mês depois do término do mandato presidencial, a migração política e eleitoral de José Sarney para o Amapá não se deu fácil e tranquilamente e só se completou em julho, na época das convenções partidárias. No campo judicial, nada menos que ações seis tentaram barrar a transferência do seu domicílio eleitoral de São Luís para Macapá, enquanto no campo político seus adversários tentaram bombardeá-lo de todas as maneiras, a céu aberto e nos subterrâneos partidários. Nada funcionou. A Justiça Eleitoral mandou para o arquivo todas as representações contra a migração de Sarney para o Amapá, de modo que ele pôde, contando os dias e as horas, mas em tempo hábil, regularizar sua situação eleitoral naquele estado, ser indicado candidato a senador na convenção do PMDB e participar da corrida às urnas.

O desfecho dessa quadra da vida política do ex-presidente José Sarney, que se completou com a transferência domiciliar eleitoral na semana passada, foi o seguinte: elegeu-se senador pelo Amapá com 236.618 votos. Confirmada sua eleição, Sarney retornou a São Luís onde comandou a campanha na qual, contrariando todas as expectativas iniciais, Edison Lobão virou o jogo e bateu João Castelo nas urnas. De quebra, assistiu à reeleição de Sarney Filho e à eleição de Roseana Sarney para a Câmara Federal. Nos 24 anos em que representou consecutivamente o Amapá no Senado, Sarney renovou o mandato duas vezes e foi eleito três vezes presidente do Senado e do Congresso Nacional. Nas eleições de 2014, poderia ter renovado o mandato pela terceira vez, mas decidiu parar. Nos últimos meses, todas as pesquisas realizadas naquele estado disseram que se ele fosse candidato no pleito de 2018, uma das duas vagas seria dele. Mas o ciclo do Amapá foi fechado na semana passada, quando ele se despediu de lá em emocionada carta aberta à população, a quem manifestou gratidão pelo acolhimento e assegurou ter cumprido todos os compromissos assumidos.

É improvável que aos 88 anos, mesmo com a saúde em forma e mergulhado em articulações políticas locais e nacionais, José Sarney venha a enfrentar as urnas. Mas para quem passou quase 70 anos surpreendendo na seara política, sua eventual candidatura, se vier a acontecer, não será exatamente uma surpresa.

 

PONTO & CONTRAPONTO

Dos quatro quatro líderes que agiram para isolar Sarney em 1990, só Cafeteira se deu bem

Epitácio Cafeteira, Renato Archer e João Castelo articularam para isolar José Sarney em 1990 (a Coluna não conseguiu imagem de Cid Carvalho)
Epitácio Cafeteira, Renato Archer e João Castelo articularam para isolar José Sarney em 1990 (a Coluna não conseguiu imagem de Cid Carvalho)

Salvo Epitácio Cafeteira, que alcançou o objetivo de ser senador, os demais líderes que se articularam para afastar José Sarney da política maranhense em 1990 conseguiram o propósito básico, mas nada lucraram politicamente com o desfecho.

Epitácio Cafeteira cumpriu sem problemas o mandato que ganhou em 1990. Em 1994, disputou o Governo do Estado com Roseana Sarney e perdeu por uma diferença de 18 mil votos. Em 1998, disputou novamente o Governo do Estado, mas Roseana Sarney se reelegeu no 1º turno. Em 2006, fez as pazes com José Sarney e com seu apoio venceu a eleição para o Senado. Aos 94 anos, vive em Brasília sob cuidados médicos.

Um dos mais importantes personalidades maranhenses da segunda metade do século passado, o militar, diplomata, cientista, empresário e cardeal do PMDB, Renato Archer, que fora derrotado por Sarney para o Governo do Estado na eleição de 1965 e por Luís Rocha em 1982, ensaiou voltar à política maranhense com o “exílio” do ex-presidente no Amapá, mas acabou compreendendo que seu tempo havia passado e decidiu continuar cuidando de seus negócios – uma sólida empresa especializada em aerofotogrametria, que produz  mapas por sequências fotográficas -, tendo se afastado definitivamente da política depois da morte de Ulisses Guimarães num acidente aéreo em Búzios. Faleceu no Rio de Janeiro em 1996 aos 73 anos.

Um dos mais importantes estrategistas políticos do Maranhão na última metade do século passado, Cid Carvalho, um advogado acreano que se radicou no Maranhão, teve seu mandato de deputado federal cassado pela ditadura e se tornou dos grandes nomes do PMDB nacional e chefe absoluto do partido no Maranhão, reelegeu-se para a Câmara Federal em 1990. Sua brilhante carreira, no entanto, foi enterrada quando ele foi identificado como um dos “anões do Orçamento”, uma quadrilha de deputados federais que desviava milhões do Orçamento da República em emendas parlamentares fajutas. Para não ser cassado, renunciou ao mandato, preservando os direitos políticos, mas o caso encerrou sua carreira, tendo ele passado o resto dos seus dias entre uma fazenda na Região Tocantina e um apartamento no Rio de Janeiro. Faleceu no Rio de Janeiro em 2004.

Mesmo apoiado ostensivamente pelo presidente Fernando Collor, João Castelo foi derrotado nas urnas por Edison Lobão no eletrizante processo eleitoral de 1990, depois de sair vitorioso no primeiro turno. Foi deputado federal varias vezes, elegeu-se prefeito de São Luís em 2008 e voltou à Câmara Federal em 2014. Faleceu em São Paulo, em 2017.

 

Em mensagem aos amapaenses, Sarney garante que não será mais candidato a nada

Mensagem ao povo do Amapá

José Sarney

Dirijo-me às minhas amigas e aos meus amigos do nosso querido Estado do Amapá, bem como a todo seu povo para lembrar que encerrei a minha vida política com a decisão tomada, desde a eleição passada, de não concorrer a mais nenhum cargo eletivo, em razão da minha idade e das dificuldades que tenho hoje para atender, plenamente, às obrigações para com o Estado do Amapá.

Como todos sabem, tenho residência em Brasília, no Maranhão e no Amapá. Pela lei, não tenho mais obrigatoriedade de votar. Assim, achei ser do meu dever transferir o meu título eleitoral para onde reside a minha família, que não é formada apenas por mim e minha mulher, mas também por filhos, netos, bisnetos, além de onze irmãos, dos quatorze que possuía.

Diante do fato de vivermos um ano eleitoral, de ter tido insistente apelo a uma possível candidatura minha e de aparecer em grande preferência nas pesquisas eleitorais no Amapá, não quero frustrar nem uns nem outros mantendo falsas expectativas, o que seria certa falta de consideração para com os que sempre estiveram comigo e me apoiaram, que têm o direito de novas oportunidades.

Assim, sem abandonar os meus vínculos e os meus deveres para com esse querido Estado, que me acolheu e me deu três mandatos de Senador, resolvi transferir o meu domicílio eleitoral para a cidade de São Luís, de onde saí.

Eu não digo “Adeus”, digo “Até logo”, pois meus vínculos com essa terra jamais se dissolverão, uma vez que a ela estou ligado por todos os laços, e não por domicílio eleitoral.
Tenho a consciência de que o Amapá hoje tem um grande futuro e está preparado para ser um importante Estado, sobretudo com as portas abertas para a juventude, que, quando aí cheguei, não tinha horizontes.

Assim é que deixo, como parte do meu trabalho, toda a infraestrutura do Estado do Amapá apta para seguir seu grande caminho.

A Zona de Livre Comércio, que ajudei a construir, deu uma nova perspectiva ao Estado e é hoje sua maior fonte de empregos e de desenvolvimento, tendo definido a sua História em dois momentos: antes e depois de existir.

Encontrei o Amapá com motores a óleo diesel e racionamento de energia elétrica durante todo o dia. Hoje o Estado é um exportador de energia, com as Usinas do Caldeirão, de Ferreira Gomes e de Santo Antônio. Além de uma coisa que nem eu mesmo acreditava que pudesse conseguir: influir para que o Linhão do Tucuruícolocasse o Amapá no Sistema Elétrico Nacional.

Deixo também a Zona Franca Verde, cujos primeiros projetos já estão sendo aprovados, que será, sem dúvida nenhuma, a complementação para a economia industrial do Amapá.
Consegui, por outro lado, salvar o Projeto Jari, uma das alavancas da economia de mercado de trabalho para o sul do Estado; que fizessem o Hospital Sarah Kubitschek, que tão grandes serviços tem prestado aos que mais precisam de ajuda, sobretudo às crianças – somente suas mães sabem o que isso significa para elas; em um Estado que não tinha terras, que fossem passadas terras da União para o Amapá; fundei a Universidade do Amapá, que sempre ajudei, e levei para o Estado as escolas profissionais de Porto Grande, de Macapá, de Santana, do Laranjal do Jari e do Oiapoque, com sua grande estrutura de ensino moderno, que se formaram com a criação de recursos humanos.

Foi importante a ajuda que dei ao prosseguimento dos estudos — que comecei ainda como Presidente da República, na época do Governo Nova da Costa — para a construção da ponte sobre o rio Araguari, a ponte sobre o rio Oiapoque e os recursos para a ponte sobre o rio Jari, que por três vezes foram mandados por mim e constitui uma grande frustração que ainda não tenha sido concluída.

Toda a minha atuação foi em obras estruturantes, que duram para sempre. É como dizia Rui Barbosa: “Plantar carvalho, que dura séculos, e não couve, que morre em 48 horas.”
Em todos os momentos, impedi que se cometessem injustiças ao funcionalismo, civil e militar, que defendi com todas as forças. Nunca deixei de defender as causas dos servidores, que passaram a receber o décimo terceiro salário porque o criei quando exerci a Presidência da República.

Não quero fazer um relatório do que deixo, porque não deixarei nunca de trabalhar pelo Estado do Amapá, pelo qual lutarei até a morte.

Devo ressaltar que, do meu lado intelectual, também criei duas obras definitivas para o Estado: a primeira é a história do Amapá — “Amapá, a terra onde o Brasil começa” —, que escrevi e que hoje é a única obra à disposição de estudantes e intelectuais. E a segunda: no meu romance “Saraminda”, a ação se passa numa área do Amapá — esse livro hoje é referência na literatura brasileira e na mundial, para a qual foi traduzido em 12 línguas.

Trabalho ainda e, se Deus me permitir com alguns anos mais pela frente, entregarei um Guia Sentimental do Amapá, para o qual venho colhendo notas e trabalhando há tempos.

A todos que me apoiaram, que me deram três vitórias, a minha mais comovida gratidão.

Agora que estou desobrigado de votar, quero, simbolicamente, eleger o Estado do Amapá como grande destinatário do meu trabalho

São Luís, 23 de Fevereiro de 2018.

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